Sábado, 4 de Julho de 2009

O gordo e os gays

Não sei se o apresentador Fausto Silva, o “Faustão”, foi sempre obeso. Não me preocupei em fazer pesquisa no Google nem na Wikipedia sobre ele (nem sei o que encontraria além da biografia oficial). Se Faustão foi uma criança obesa, provavelmente deve ter sentido o peso do preconceito que essas crianças ainda hoje sofrem. Mesmo quando a obesidade infantil não era tratada como doença e distúrbio, o "gordinho da escola" já era enxovalhado pelos colegas, tratado como "engraçadinho" e "fofinho" pelas meninas (mas com poucas chances de arrumar uma namorada) e estava na fila dos últimos a serem escolhidos para os times de Educação Física.

Entre os últimos, mas nunca sozinho: ao seu lado, lá estava o garoto franzino de óculos – o "CDF", a quem só restava ser ótimo aluno para ter qualquer tipo de visibilidade (o que acabava reforçando o estereótipo e isolando-o ainda mais). E, se nenhum dos dois fosse gay em fase de descoberta, provavelmente haveria um nesse grupo também. A sociedade é cruel com seus "diferentes" e as crianças e adolescentes aprendem rapidamente a reproduzir o preconceito e a discriminação. Talvez essa tenha sempre sido uma das lições mais fáceis de se aprender na escola: repetida arduamente todos os dias, por colegas, professores, inspetores, secretárias e agentes de serviços gerais, acaba se incrustando na mente e no comportamento das crianças, à guisa de "normalidade". Esse, aliás, é o grande problema dos estereótipos: suas vítimas são coagidas pela sociedade de tal forma que acabam vendo-se obrigadas a reforçá-los ainda mais, repetindo um ciclo.

Não sei se ele foi discriminado na infância, ou se teve a sorte dúbia de ter sido um "gordo feliz" – como são chamados aqueles que se fazem de engraçados e simpáticos, que são a "alegria da festa" e, por isso, são mais facilmente tolerados, mas nem por isso são mais felizes de verdade. Esse, afinal, tem sido o papel social do homem obeso – ser simpático e engraçado, preferencialmente fazendo graça com a própria obesidade (e, por sinal, também é um dos principais papéis sociais do gay, na busca da aceitação)

Não é a toa que muitos humoristas famosos foram e são obesos. Assim também com apresentadores "engraçados". Para quem não se lembra, Faustão ficou famoso antes da Globo. Ele apresentava o "Perdidos na Noite" nas noites e madrugadas de sábado, um programa alternativo e politicamente incorreto, cheio de improvisos e com baixo custo de produção. Lá, ele podia falar o que bem entendia (o programa estava além dos horários problemáticos para a Censura), sem medo de destilar venenos e disparar para todos os lados. Como aconteceu com tantos outros sucessos de emissoras concorrentes, a Globo o tornou parte de sua programação diurna e "familiar", o que inevitavelmente impõe algumas mudanças sérias no seu perfil.

Vivemos numa cultura de culpa – e numa cultura de culpa a sobrevivência acaba dependendo de se buscar álibis apropriados, desculpas convincentes e/ou bodes expiatórios. O humor sempre lidou com a ridicularização do "diferente" e com o fortalecimento de estereótipos. Creio que todo mundo conheça a classificação de piadas: são quase sempre denominadas por "vítima": piadas de loura, de português, de gordo, de gay... até bem pouco tempo, ainda havia lugar público para as piadas de judeu (que, por envolverem uma suposta avareza deles, também incluem árabes, libaneses, sírios e turcos, sob uma denominação étnica comum), de negro e de deficiente físico.

O "problema" (porque só é problema para quem conta a piada) é que, ultimamente, as minorias têm se mobilizado para fazer valer um princípio constitucional básico e fundamental: é proibido discriminar pessoas em função de raça, etnia, religião, gênero, sexualidade, origem geográfica, classe social etc. Por isso, piadas de judeu, turco, negro e pessoas com deficiência podem ser motivo de ações judiciais sérias, multa e até prisão. O que parece que está acontecendo é que os humoristas e "engraçados" da TV, ao ver que suas vítimas habituais estão se tornando inatingíveis, apontam suas armas para "quem sobrou", especialmente louras e gays.

Nesse momento, por exemplo, a discussão do Faustão (que é obeso, não se esqueçam) é com a diversidade de gênero e sexualidade. Ele foi instado pela Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) – sem ofensas, no maior clima de respeito – a diminuir a quantidade de piadas e uso de termos pejorativos que usa quando se refere a outros homens como "boiola", "libélula", "morde fronha", entre outros, na insinuação de que sejam gays. E resolveu tomar uma atitude pública, ironizando a carta em seu programa, pedindo "tolerância" à ABGLT, minimizando o efeito de seu próprio programa sobre a sociedade e a cultura e, no fim, comparando as pessoas LGBT às louras burras.

Faustão – quer gostemos ou não, infelizmente para muita gente – é um formador de opinião e disseminador de conceitos nas camadas populares que assistem ao seu programa todos os domingos. Seus jargões como "Ô loco, meu!" e apelidos como "pentelho" se espalham por casas, escolas e escritórios. Aliás, até ele fazer uso contínuo de "pentelho" na TV para designar o cara chato, a palavra era banida da TV e da imprensa, tida como palavrão, sussurrada longe dos ouvidos de mães e avós. Hoje, mães e avós usam o termo sem problemas e já nem se preocupam tanto se crianças o falam também – se isso não é indicativo de uma influência direta, não sei o que é.

Muito pior do que quando ele faz uma piada ou usa um termo pejorativo no decorrer do seu programa, quando Faustão vem a público defender seu "direito de fazer humor" (leia-se "direito de discriminar") ironizando e pedindo "tolerância" com sua forma de fazer humor, ele dá armas aos intolerantes.

Não seria melhor ele pedir tolerância aos colegas de escola que xingam, ridicularizam – e acabam espancando – os "boiolas" e "libélulas" da turma? Tolerância aos pais que batem, castigam e acabam expulsando de casa seus filhos gays, suas filhas lésbicas? Tolerância à sociedade que empurra travestis para a prostituição e depois as isola – e quando elas aparecem mortas na sarjeta, ainda as ridiculariza pela mídia, chamando-as de "travecos" e "bonecas"?

Faustão deveria se levar um pouco mais a sério. Não é porque ele usa gírias e conversa informalmente com artistas e celebridades, que a sua comunicação é desprovida de uma linha editorial (como qualquer produto da comunicação de massa). Ele tem uma responsabilidade para com seu público e a sociedade em geral. Se ele acha que não influencia a opinião pública, então ele está negando a audiência de seu próprio programa e devia se retirar da TV. Se ele finalmente admitir que é uma influência em potencial para os telespectadores – inclusive crianças e adolescentes que assistem avidamente seu programa todos os domingos e vão comentá-lo e repetir seus jargões durante a semana – então ele deve saber que ele, sim, deve ser mais tolerante com as pessoas de um modo geral. E participar, se possível, do Programa "Brasil sem Homofobia".

Ele não pode acreditar realmente que, se parar de ridicularizar as pessoas usando termos de conotação homossexual pejorativa, vai deixar de ser "engraçado". Existem outras formas – muito mais inteligentes, diga-se de passagem – de se fazer humor. Ele e sua produção deviam pensar nisso e deixar os gays em paz.

Enfim, sejamos francos: um dia os portugueses, as louras e as pessoas obesas vão acabar se cansando de serem alvos de piadas. Nossos camaradas lusitanos podem muito bem entrar na questão da origem geográfica; ser loura natural é fazer parte de uma minoria étnica neste país; e as pessoas obesas – bom, para quem não sabe, obesidade é doença, o que facilmente inclui essas pessoas na lista de pessoas com deficiência. Ou seja, o próprio Faustão (que é obeso, não se esqueçam) devia estar na luta contra o preconceito em todas as suas vertentes. E com bom humor.

(as imagens foram capturadas do blogs Guima Cartunista e Risada Forçada, no Blogspot.com)

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

Curso "Diversidade Sexual e Mídia: Conjuntura e Perspectivas", na UERJ



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Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

Ex-gay, bissexual ou só mais uma caricatura?

Mais uma vez assistimos, em escala nacional, uma telenovela da Globo chegar ao final trazendo mais polêmicas relativas à (homo/bi)sexualidade. Em "A Favorita", Orlandinho (Iran Malfitano), que se dizia gay, "resolveu ser heterossexual e abandonar o mundo gay" – referindo-se ao estereótipo de gays que só se preocupam com moda e cabelos. Ele resolve fazer "coisas de macho", como cortar o cabelo, assistir a esportes e comer bife com ovo frito.

Eu não sei bem a que "mundo gay" ele se refere, uma vez que Orlandinho jamais deve ter freqüentado um ambiente gay de verdade. Se tivesse, provavelmente já teria há muito tempo deixado de lado a sua paixão platônica não correspondida por Halley (Cauã Reymond) e teria conhecido alguém que realmente lhe desse o devido valor como pessoa, como homem e como companheiro. Além disso, eu não sabia que bife com ovo frito era "comida de macho", nem que apreciação por esportes é exclusiva de heterossexuais. Ou que todo gay fosse especialista em moda e usasse cabelo comprido.

Sim, sabemos que a telenovela não é - nem pretende realmente ser, apesar de toda a publicidade que a emissora faz nesse sentido - um retrato verossímil da realidade. Também sabemos que ela precisa de alguns estereótipos para estabelecer uma relação rápida e superficial de empatia com o público. Mas, isso não quer dizer que a novela precise se servir de caricaturas. Nem significa que, infelizmente, muita gente não creia que o que se passa na telenovela reproduz uma realidade. O fato é que muitos telespectadores têm na telenovela sua única (ou pelo menos a maior) referência de mundo fora de sua comunidade, de seu espaço geográfico e de sua cultura local. Isso torna a novela um veículo potencialmente estratégico – ou perigoso – de divulgação de valores.

Não é novidade, por exemplo, o medo que grupos conservadores, especialmente religiosos, têm de que um dia a novela venha a exibir o "beijo gay". Esses grupos dizem temer a "influência" que tal cena numa novela poderá ter sobre crianças e adolescentes, além do imaginário popular. Os mesmos grupos não parecem tão preocupados em ver constantes manifestações de violência, drogas, sexo desenfreado e nudez na TV, inclusive em horários mais acessíveis a crianças e adolescentes. Por que será que, em um momento, se diz que a TV apenas "mostra a realidade" e em outro ela "influencia o imaginário popular e as crianças"? Esses discursos de moralismo falam mais sobre quem os faz do que sobre os produtos da mídia que são criticados. E nos dizem da necessidade urgente de fazer cair alguns tabus, de educar para a verdadeira cidadania – aquela que aceita a diversidade e a diferença e não censura direitos.

O fato é que esses grupos conservadores temem que a telenovela tenha a capacidade de passar a imagem de que a heterossexualidade não é a única sexualidade normal e convencer as pessoas disso. De fato, eles atribuem à telenovela (e à TV de um modo geral) poderes quase "sobrenaturais" de influência sobre "a massa". Como eu já disse, a TV é um fator importante de referência para a população - especialmente a população carente de educação e/ou culturalmente isolada - mas, não é exatamente por isso que a telenovela devia ser usada como ferramenta de integração e disseminação de valores realmente importantes, como a aceitação da diferença, por exemplo? Mais ainda, não é por isso que a telenovela devia ajudar a ensinar às pessoas o verdadeiro significado do jargão cristão "amai-vos uns aos outros", que é o primeiro mandamento de Jesus mas parece ter sido cada vez mais esquecido pelos líderes dos cultos que deviam seguir seus ensinamentos?

Uma coisa que eu acho particularmente sinistra e perversa é a justificativa que a Globo dá para não apresentar cenas como a do "beijo gay": segundo ela "a população do interior não está preparada para assistir a cenas assim". Quem é a emissora para determinar o que a população está ou não preparada para assistir? Pior ainda: e quanto a toda uma população que já conhece a realidade afetivo-emocional que envolve não só o beijo, mas todo o processo de afetividade, como por exemplo a homoparentalidade (a formação de núcleos familiares homo e transexuais com filhos)? São famílias que assistem novela da mesma forma como as famílias heterossexuais, mas quando vêem um casal de homens ou de mulheres, sempre vê aquela relação pasteurizada, fria, reduzida ao discurso "eu te amo" e, quando muito, a um abraço.

Tal como grande parte da população se vê "refletida" na novela, muitas pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros) buscam uma imagem de identificação. Aí, o que ela vêem? Um rapaz cujo comportamento mais parece uma caricatura, em uma situação digna de programa humorístico, declarando que vai "deixar de ser gay". Gay ele nunca parece ter sido de verdade, pois nem sabe bem o que é; agora, daí a ser "ex-gay" é ainda mais complicado. E, quanto à "influência da novela na família", é preciso lembrar que LGBT também têm família, também podem ter filhos, também têm direitos de cidadania que precisam ser respeitados. A educação para a sexualidade é disciplina prevista em lei, mas na prática as escolas pouco ou nada apresentam e as famílias a temem (como se seus filhos não fossem aprender - muitas vezes coisas erradas - sobre sexo na rua, na internet etc.).

Segundo o Prof. Dr. Luís Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB) e decano do Movimento Homossexual Brasileiro (MHB), a sexualidade é plural, dialética e livre. Indo além, eu diria que o problema é que a mentalidade da nossa cultura é binária, absolutista e aprisionada em conceitos ultrapassados e limitados. Tendemos a querer polarizar tudo – e a telenovela ajuda nesse processo, criando pólos de "rico" x "pobre", "bem" x "mal", "vilã(o)" x "mocinha(o)", "masculino" x "feminino", "homossexual" x "heterossexual".

Pensa-se, sempre, em termos de pares de opostos que se excluem mutuamente. Não é possível ao vilão fazer um ato de bondade; assim, também, ou se é gay ou se é "macho". A bissexualidade – talvez a condição sexual mais natural e primária de todas, anterior à influência social que nos força à heteronormatividade – não é nem citada, nem levada em consideração. Um gay que "resolve" mudar publicamente de estilo (seja pela razão que for) passa a ser "ex-gay". Assim, de estalo. Como se um homem heterossexual acordasse de manhã e dissesse "A partir de hoje, louras nunca mais; só pego orientais". Ou resolvesse "A partir de hoje, só vou gostar de homens".

Só que a condição sexual, bem como a identidade de gênero, não é uma escolha consciente. Não se escolhe do que se vai gostar. Existe uma forte percentagem de desejo natural e uma parcela de influência social – aquela mesma que reprime as pessoas LGBT desde o berço, forçando-as a assumir papéis que não são os seus. A "escolha" que se faz geralmente tem dois passos: o primeiro é "Vou ou não me aceitar como sou?" e, se a resposta for "sim", o segundo é "Vou ou não contar para alguém mais?" (e, a partir daí, como vou lidar publicamente com a minha sexualidade e a das outras pessoas?)

Muitas vezes, depois de anos de um casamento de fachada, com filhos e até netos, a pessoa finalmente se sente forte e disposta o suficiente para se declarar (ou "assumir", como se diz por aí), para tentar recuperar o tempo perdido e finalmente ser feliz com sua verdade pessoal. Nesse caso, podemos aceitar, sim, que existam "ex-gays"; porque de "ex-heterossexuais" o mundo está cheio.

Domingo, 6 de Julho de 2008

Mostra "A Homossexualidade na Mídia"

De 8 a 20 de julho, no Rio de Janeiro e de 15 a 20 de julho, em São Paulo, a Caixa Cultural fará uma grande mostra de filmes e várias mesas de debate sobre o tema "A Homossexualidade na Mídia - o que mudou?".

A programação completa pode ser acessada no site da Caixa Cultural: www.caixacultural.com.br

A programação de abertura é a seguinte:

- 16h - Exibição de "Teorema" de Pier Paolo Pasolini.

- 18h - Mesa de Abertura: "A Crescente Exposição do Personagem Homossexual", com Gilberto Gravonski, Sofia Zanforlin e Ricardo Linhares. Mediação de Eduardo Peret (sim, eu).

- 20h - Coquetel.

A Caixa Cultural do RJ fica na Av. Almirante Barroso, 25.

A programação de São Paulo ainda não foi atualizada. Eu sei que estarei em uma mesa no dia 16.

Espero tod@s lá!

Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

Conferência Nacional GLBT: momentos de reflexão

Estou colocando aqui o texto original do meu artigo que foi publicado no "Globo Online" de 06/06/2008. O texto foi enviado ao jornal dias antes da Conferência, por isso ficou um pouco desatualizado. Comentários são mais do que bem-vindos!

Nos dias 6, 7 e 8 de junho, realiza-se em Brasília a I Conferência Nacional de Políticas Públicas para Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (GLBT). Ela serve como espaço de debates das diretrizes do Programa “Brasil sem Homofobia”, além de consolidar planos de metas levantados nas Conferências Estaduais, realizadas em todas as unidades da Federação.

Pela primeira vez no mundo, um governo convocou um conjunto de ações dessa magnitude, para discutir as questões relativas à sua população homossexual, bissexual, travesti e transexual. Só o reconhecimento da existência dessa população e de suas demandas já é um marco histórico, enquanto o presidente do Irã afirma que não existem gays no seu país e o governo de Gâmbia prende seus gays e expulsa estrangeiros acusados do “crime” da homossexualidade.

Pela primeira vez, o Poder Público se reúne com a Sociedade Civil organizada em escala nacional, após meses de debates em todo o país, em que foram determinadas as necessidades locais, municipais, estaduais e regionais de pessoas que, até 30 anos atrás, eram ‘invisíveis’.

Pessoas que se viam (e muitas ainda se vêem) forçadas a manter vidas secretas, escondidas de suas famílias, cobertas por máscaras de hipocrisia, relegadas à marginalidade e citadas apenas em piadas preconceituosas, ou nas páginas policiais, quando aparecem mortas em motéis e becos. Pessoas que sempre existiram, mas que nunca são da família de quem as cita; são “os vizinhos excêntricos”, os “colegas estranhos” da escola, “as figuras” nas esquinas de má reputação.

De lá pra cá, muita coisa mudou, para o bem e para o mal. A epidemia de AIDS nos anos 80 quase transformou a população gay em “criminosa”, quando conservadores e religiosos fundamentalistas chamavam a doença de “câncer gay” e “punição divina”. Hoje, ainda existe discriminação na decisão da Anvisa, de proibir que homens que tiveram relações sexuais com homens nos últimos 12 meses sejam doadores de sangue, sob alegações de “grupo de risco” e “janela imunológica”. Enquanto isso, milhares de heterossexuais fazem sexo desprotegido, espalham DSTs e continuam doando sangue, sem temer nada. Janela imunológica não escolhe gênero, ela existe para todo mundo.

Os crimes contra homossexuais continuam mal investigados, enquanto a mídia e a polícia pré-julgam travestis e as humilham, chamando-as pelos nomes de registro, enquanto se referem aos famosos por apelidos carinhosos, como no caso de Andréia Albertini e Ronaldo. Em 2007, de acordo com a pesquisa do Grupo Gay da Bahia (GGB), houve 122 assassinatos de homossexuais e travestis em todo o país (um a cada três dias) e esses foram só os que tiveram repercussão na imprensa. Só podemos especular sobre o número real.

Em preparação para a Conferência, alguns militantes prepararam um ato com cruzes próximo ao Congresso Nacional, para marcar os assassinatos de 2008. Foram encomendadas 70 cruzes, mais cinco de ‘sobra’, caso o número mudasse – e duas já terão que ser usadas: em 1º de junho, mais dois crimes foram registrados, totalizando 72 assassinatos em 152 dias – uma morte a cada dois dias. Nem chegamos ao meio do ano e a perspectiva já é sombria (as fotos primeira e a última deste artigo são da instalação em BSB, feitas por Alexandra Martins; a imagem das cruzes ao lado é uma cortesia do colega de listas Luiz Mario Alexandre)

Dias antes da Conferência Nacional, ficção e realidade falam mais sobre o quanto ainda temos que caminhar e quantos obstáculos ainda devem ser enfrentados:

No final da novela “Duas Caras”, Aguinaldo Silva apresentou o primeiro casamento gay – na verdade, um contrato de união civil – da telenovela nacional. Infelizmente, ainda sem beijo. É irreal, mesmo para uma novela, que um casal chegue ao altar – ou ao cartório – e não celebre sua união com um beijo, como qualquer outro casal. Esse é o verdadeiro significado simbólico da visibilidade GLBT nas novelas: lembrar a todo mundo que “essas pessoas” são gente como todo mundo, normais como todo mundo e merecem ser felizes como todo mundo.

Enquanto a Organização dos Estados Americanos aprova a Resolução 2435, de “Direitos Humanos, Orientação Sexual e Identidade de Gênero” – uma iniciativa do governo brasileiro – no território nacional, a população GLBT continua sem resposta sobre os 37 direitos fundamentais que lhe são negados, inclusive o direito ao casamento e ao reconhecimento de que “família” não se resume ao modelo do casal heterossexual com filhos. O que temos é o direito de adoção por um dos parceiros, como se fosse solteiro(a). Ainda dependemos da boa vontade do Judiciário para resolver essas questões. No Legislativo, preso em acordos de lideranças partidárias e em maquinações de conservadores e religiosos que mal conseguem disfarçar seu preconceito, projetos importantes, como o reconhecimento dos direitos dos casais homossexuais e a lei que criminaliza a homofobia, simplesmente não andam.

No Rio, a Alerj reitera a defesa da diversidade, rejeitando propostas reacionárias que, se aprovadas, acabariam com o direito de pensão de companheiros do mesmo sexo de servidores públicos estaduais, estabelecido pela lei 5034/07. Em São Paulo, testemunhamos a prisão do sargento Laci de Araújo, sob alegação de deserção do exército. “Deserção” que podia ter sido resolvida com a detenção do militar a qualquer tempo, já que ele não estava foragido – mas, curiosamente, a prisão só ocorreu após o sargento e seu companheiro, o sargento Fernando Alcântara, terem declarado seu relacionamento à revista ‘Época’ e terem aparecido na TV. Uma “coincidência” que confirma a tradição homofóbica das Forças Armadas e, ainda por cima, nos remete à triste lembrança do anos de chumbo da Ditadura, quando as decisões de comandantes eram inquestionáveis e a o contingente militar se colocava acima das leis e dos direitos.

Tudo isso mostra o quanto ainda falta no caminho para o dia em que seremos realmente todos iguais, como afirma a Constituição. Que a Conferência Nacional seja mais um passo nessa estrada!

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Ronaldo e as travestis: respeito é bom e elas merecem

Hoje eu estou postando o meu artigo que foi publicado no Globo Online, para que aqueles que não tiveram acesso a ele possam lê-lo na íntegra aqui. Quem já leu mas não conseguiu comentar no site, sinta-se à vontade para comentar aqui.

Muito tem sido dito na mídia sobre o escândalo mal-resolvido entre o jogador Ronaldo e as três travestis que ele afirma ter contratado “por engano”. Se houve engano ou não, isso não é importante. Importante é que haja uma investigação imparcial sobre as versões do caso, tanto pela suposta encomenda de drogas pelo jogador, quanto pela suposta tentativa de extorsão por parte da travesti Andréia. Porém, imparcialidade é tudo o que não temos visto.

A prostituição não é crime no Brasil. Mulheres e travestis (e, em menor escala, homens) que se prostituem têm associações e sindicatos que defendem os seus direitos. Por outro lado, a discriminação é vedada pela Constituição e é considerada crime. Mas, numa cultura ainda extremamente contaminada por valores arcaicos e machistas, a discriminação está solta. A começar pela própria polícia e pela imprensa.

Na primeira entrevista, o delegado responsável pelo caso prontamente tranqüilizou Ronaldo, dando claramente a entender que o caso seria averiguado em favor dele. Ele já pré-julgou a travesti Andréia publicamente. Ela e as outras travestis foram convocadas à delegacia para prestar depoimentos repetidas vezes, enquanto Ronaldo é tratado como vítima e eximido de qualquer responsabilidade. O máximo que a imprensa brasileira faz é ridicularizar sua declaração de que “não percebeu que se tratava de travestis”. Já há aqueles que se colocam na “defesa” do jogador, afirmando que ele é “espada” e que é, mesmo, difícil diferenciar as travestis envolvidas no caso de mulheres. Outros põem em cheque a masculinidade do jogador e outros, ainda, ironicamente citam sua “miopia” como a razão para ele ter estado em uma fase ruim no futebol.

Enquanto isso, a história se repete. As travestis têm sido vítimas de preconceito, incompreensão e violência há séculos. Inicialmente homens que se vestiam com roupas e assessórios femininos e que mais tarde passaram a tomar remédios para feminilizarem seus corpos, os avanços na tecnologia médica lhes permitiram fazer modificações corporais mais profundas. O silicone foi, desde o início de seu uso, associado ao travestismo. Contemporaneamente, cientistas sociais consideram que a travesti foi a precursora (e muitas vezes a infeliz vítima) de inúmeros processos cirúrgicos e bioquímicos que revolucionaram a Ciência. Numa sociedade em que temos desde cirurgias reparatórias simples até maquiagem permanente, plásticas bem elaboradas e próteses variadas; numa cultura em que nos tornamos ratos de academia, fazemos dietas mirabolantes e tomamos suplementos alimentares, ao ponto de estarmos nos transformando em “ciborgues”, a travesti pode ser considerada como “o primeiro ciborgue”, uma pioneira da era contemporânea.

Contudo, não lhes damos o devido valor como pessoas. Travestis são consideradas aberrações, pessoas doentes, sem identidade, “com o diabo no corpo”. Ainda são vistas como “homens homossexuais que tentam ser mulheres” – o que é um erro grave que só complica ainda mais as suas vidas. A travesti não é homossexual. Os gays de uma forma geral não querem se tornar mulheres. A travesti também não é transexual. Enquanto a transexual deseja passar por todos os estágios até chegar à transformação total do seu corpo (mudando do fenótipo masculino para o feminino ou vice-versa), a travesti permanece com suas características sexuais primárias (sua genitália) da forma original, só modificando suas características secundárias (cabelos, pêlos, seios, curvas etc.). “Travesti” é considerada uma identidade de gênero própria, intermediária entre as identidades masculina e feminina. Vale lembrar que existem, também, os travestis masculinos (que nasceram em corpos femininos e fazem o processo inverso do mais conhecido).

Por isso, um homem ou mulher que sinta desejo por travesti não é homossexual. Citando o Prof. Luiz Mott, decano do Movimento Homossexual Brasileiro, “travesti não é homem nem mulher, é travesti”. É sabido que a maior parte dos clientes das travestis que se prostituem são homens heterossexuais. Não, eles não são “gays enrustidos”, nem bissexuais. Eles gostam de travestis. Os homo e bissexuais que também têm relações com travestis são poucos. Se não existisse essa demanda, a oferta delas no mercado sexual já teria acabado há séculos.

E as travestis são (mal)tratadas como prostitutas – mesmo as que têm outras profissões – e raramente podem trabalhar em outra coisa. Quando muito, são cabeleireiras, manicures, maquiadoras, cantoras, atrizes. Quantos de nós imaginam uma travesti advogada ou profissional de saúde? Mas elas existem!

A maior parte das travestis descobre sua identidade na adolescência. Muitas são expulsas de casa e não conseguem completar seus estudos. Que escola as recebe, dando-lhes amparo quando seus colegas e até familiares olham para elas como monstros? Que universidade abre suas portas para elas e garante que realizem seus sonhos acadêmicos e profissionais?

São citadas nos jornais por seus nomes masculinos e ridicularizadas, em total desrespeito a um processo de transição que, por si só, é complicado, mesmo que não existisse o preconceito. Quando uma travesti é assassinada, a investigação não anda, faltam provas e testemunhas. As travestis têm espaço nas páginas policiais, geralmente como vítimas. E, mesmo assim, são chamadas de “boneca”, “mulher com surpresa”, ou erroneamente citadas como homossexuais. Alguns jornais chegam a dizer “o travesti Andréia”, em patente provocação contra sua identidade de gênero. Se a travesti é feminina, é “a” travesti; se é masculino, é “o” travesti. Até a palavra é de dois gêneros.

Se houve tráfico de drogas, roubo ou extorsão a polícia deve fazer uma investigação imparcial e é trabalho da imprensa retratar os fatos de forma idônea. Mas não cabe a ninguém pré-julgar e condenar as travestis só por serem travestis. Respeito é bom e elas merecem.

Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

A Idosa e a Bengala

Na semana passada, eu vi o que pode ser o fim de uma saga muito estranha. Após cerca de cinco anos, um golpe – nem tão sabiamente aplicado, mas eficaz assim mesmo – foi desmascarado e sua perpetradora, uma senhora idosa muito simpática, ficou sem uma fonte (improvável) de renda extra.

E o que essa “doce velhinha” fazia? Nada menos do que uma estratégia, no mínimo, inusitada. Ela visitava esse ou aquele shopping center, se posicionava próxima a uma tabacaria (daquelas lojas que vendem várias bugigangas, sabem?) e, fazendo uma cara triste, conquistava a simpatia de algum passante, sugerindo-lhe que não conseguia caminhar direito e que seria “um ato de caridade” que ele ou ela lhe comprasse uma bengala, ou pelo menos ajudasse na arrecadação da quantia necessária. E o otário... digo, o bom samaritano ia lá, coçava o bolso e dava alguma ajuda à “pobre senhora”, que bem poderia ser sua mãe, tia ou avó. Algumas pessoas chegavam a comprar a bengala para ela.

Não passava pela cabeça de ninguém a quantidade de furos dessa história: o que uma simpática senhora com dificuldades de locomoção estaria fazendo, sozinha, em um andar alto de um shopping (porque a maior parte das tabacarias não fica no térreo), pedindo dinheiro às pessoas? Que família cruel sujeitaria uma idosa a tal humilhação? E por que tinha que ser numa tabacaria de shopping? Certamente, há lojas onde as bengalas são muito mais baratas. Mas, como quase sempre acontece, quando o coração derrete, o raciocínio falha.

O fato é que a senhora não tinha nenhuma dificuldade de locomoção, nem comprava a bengala com o dinheiro arrecadado. E, quando lhe compravam a bengala, ela rapidamente dava um jeito de quebrar o instrumento e, poucos dias depois, voltava à loja para exigir “o seu dinheiro” de volta. No início, os lojistas, com pena dela, até cediam – mesmo que a bengala tivesse sido paga no cartão de crédito de outra pessoa – em mais uma demonstração de como o coração mole embota o cérebro. Mas, após todo esse tempo aplicando golpes em diferentes shoppings, ela acabou “perdendo o charme”. Na semana passada, os atendentes da loja disseram que só poderiam trocar a bengala (e não devolver o dinheiro) mediante a apresentação da nota fiscal (que o último “bom samaritano” não tinha deixado com ela; talvez nem tivesse pedido). Visivelmente contrariada, ela ficou lá, com uma bengala rachada nas mãos, andando rápido de um lado para o outro (demonstrando claramente sua agilidade), sem saber o que fazer, até que os seguranças do shopping se ofereceram para acompanhá-la até a administração, de onde ligariam para sua família – e ela saiu de lá sem nem olhar para trás.

Essa cena me fez pensar no que faz uma pessoa se dar a todo esse trabalho para conseguir dinheiro “fácil”. No caso dela, poderia até ser esclerose ou um “hobby” muito peculiar, mas é um fato: em nossa cultura, somos ensinados a levar vantagem sobre os outros. Para quem se lembra da peça publicitária que trazia o então jogador Gerson falando “Leve vantagem, fume Vila Rica”, a expressão “lei de Gerson” tem implicações óbvias e manifestações diárias. O pior, na minha opinião, é a falta de memória (ou de vontade) das pessoas, que acabam aceitando “as coisas como elas são” e não se preocupam mais em questionar.

Todos os dias, o ônibus que eu pego é invadido por, pelo menos, dois ambulantes. Um geralmente vende balas e doces, ou barras de chocolate, enquanto o outro vende objetos para o lar, canetas, enfeites de cabelo e até “novidades e artigos para presente”, como se fosse uma importadora sobre duas pernas. Um deles ainda traz o jargão “Bom dia, senhoras e senhores; desculpem incomodar o silêncio da sua viagem”; o segundo geralmente nem se preocupa, já vai apresentando a mercadoria “Aí, gente, vai levar capa para Riocard, um real, kit de manicure, um real, caneta com calendário, novidade, um real...” – no fim das contas, quem é pior, o que se desculpa por antecipação, mas não nos dá a opção de não termos o silêncio da viagem incomodado, ou o que, assumidamente, vai nos incomodar mesmo e por isso nem se preocupa com a nossa opinião? Ou os passageiros, que além de não ligarem, ainda compram os itens oferecidos, como se não houvesse uma loja, padaria ou outro local em que poderiam comprar os mesmos produtos, com muito mais garantias de validade e qualidade? Aí alguém me diz “mas, ali a oferta vem até você, é mais cômodo” e eu pergunto “você sabe o caminho que a tal ‘oferta’ fez até chegar a você?” Ou alguém ainda tem dúvidas sobre a procedência daquela mercadoria? Roubos, contrabando, a própria artimanha do lojista para fugir do fisco... E lá estamos nós, pagando por isso e achando “normal”...

Todos os dias, no caminho de ida e volta entre meu prédio e a Uerj, sou abordado por mendigos chorosos, meninos ávidos por uma moeda, malabaristas de sinal de trânsito, lavadores de pára-brisa. Se você não dá o dinheiro, você é o “monstro”, o “anti-social”, o “malvado”, conforme eles fazem questão de demonstrar com suas expressões indignadas e seus pedidos insistentes. Se você perde a paciência e se irrita, você é quem perdeu a razão; eles ainda são cheios de si, exigindo que você “fale direito” com eles, já que eles só estavam ali pedindo, “com todo o respeito”. Como se não fosse uma falta de respeito total, desde o início, eles interromperem o seu caminho, atrapalharem a sua vida, insistirem em seus pedidos vãos e suas ofertas pífias de “serviços” inúteis. Como se boa parte deles nem vá usar o dinheiro e sim entregá-lo a seus "empresários"; como se tantos outros não fossem usar o dinheiro para comprar drogas.

O bordão clássico já nem é mais usado: “Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, eu podia estar estrupando a Língua Portuguesa...” – sim, porque, além de usarem gerúndios em mais variações irritantes (só ultrapassadas, até agora, pelo sensacional futuro composto do gerúndio “eu vou estar tentando resolver o seu problema, senhor”, que usa nada menos do que quatro verbos...), essas pessoas colocam diante do povo uma “alternativa social” absurda e inaceitável como se fosse o “normal”. Qual é a alternativa à mendicância? A criminalidade, na opinião deles mesmos. Trabalho honesto? Nem pensar. E não me venham dizer que falta emprego, que falta oportunidade. Não falta tanto assim, não. Até o trabalho informal citado acima seria preferível à mendicância, mas não, "pedir é melhor do que roubar" - e do que trabalhar, também. O pior é que a maior parte da “população de rua” nem é “de rua”, mesmo. Muitos têm lugar pra morar e até oportunidade de trabalhar onde moram, mas ganham mais e gastam menos na rua. Outros simplesmente foram expulsos de comunidades, seja por rivalidade com lideranças locais, seja por pura estratégia de desvio de atenção criada por essas lideranças – pode-se observar que as autoridades fiscalizam menos o tráfico onde há excesso de população de rua para atrapalhar a vida alheia e ocupar seu tempo.

Tempo, aliás, muito mal empregado pelas autoridades, diga-se de passagem. Acabamos de passar pelo 110º dia do ano e já foram identificados 53 assassinatos brutais de GLBT no Brasil (cerca de um assassinato a cada dois dias), fora os não registrados e os outros atos de brutalidade, 99% dos quais sem solução – e mesmo quando há culpados, muitos ficam em liberdade ou cumprem penas mínimas. Enquanto a mídia faz um verdadeiro circo com as controversas medidas tomadas pela polícia e Justiça sobre o caso Isabella, a população brinca de “CSI”, inúmeros depoimentos desmentem uns aos outros e cada nova notícia vem complicar ainda mais as coisas, o que se faz contra a truculência homofóbica e os crimes que ninguém parece querer desvendar? Por que isso? É porque o assassinato de gay por um pretenso “heterossexual” que quer negar ter tido algum envolvimento amoroso se justifica por “defesa da honra masculina”? Porque extorquir dinheiro do gay idoso e depois matá-lo quando ele não paga mais é “o correto a ser feito”? Porque a travesti vive como a prostituta e nenhum delas merece viver? Porque estuprar a lésbica repetidamente vai “curá-la” de sua sexualidade?

É irônico e cruelmente "engraçado" como, para cuidar de um caso como o da menina assassinada, de repente, surgem laudos periciais ultra-rápidos, depoimentos são tomados com presteza, os promotores e juízes se movimentam, a Justiça afinal parece ter um ritmo acelerado. Quem dos leitores já encarou um processo policial (seja do lado que for) e viu tamanha rapidez na produção de informações, documentos, laudos etc.? Eu mesmo, quando fiz exame de corpo de delito por ter sofrido uma agressão, tive que esperar um mês para ver o mesmo documento que o médico tinha escrito e assinado no dia do exame, só com mais carimbos.

Mas, claro, o que é, na cabeça da população, uma agressão homofóbica, comparada à brutalidade (imaginada, porque nada foi provado ainda) de um pessoas que estrangulam e atiram uma menina pela janela? O que são mais de uma centena de assassinatos brutais de gays, lésbicas e travestis ao longo de um ano, comparados à morte de uma menina de classe média, de “boa família”? O que são todas as mortes provocadas pela invasão de terras, pelos conflitos entre posseiros e indígenas, o que são as mortes causadas direta ou indiretamente pela corrupção, pelo tráfico, pela disputa política, pela demagogia, por erros médicos, pelo desleixo das autoridades? O que são algumas dezenas de vítimas fatais da dengue, outras tantas da tuberculose, além do retorno da sífilis e de outras doenças que já deveriam estar extintas, mas que a falta de cuidado e o descaso estão trazendo de volta?

Se nada disso afeta a mídia, se não se mantém nas primeiras páginas dos jornais por mais de dois dias seguidos, se não mexe com a opinião pública, se não causa comoção nacional, é mais uma coisa “normal” a ser “aceita” em meio a tantas distorções. Quando o caso Isabella passar, rapidamente outro será colocado na primeira página, outro caso que não envolverá uma família de comunidade destruída, um gay idoso assassinado, uma transexual mãe que perde a guarda do filho, nem uma lésbica estuprada. Será mais uma “boa família”, “normal”, que vai ganhar expressão na mídia e tocar os corações da população. E continuaremos tendo idosas usando bengalas de que não precisam, lavadores e malabaristas nos sinais, população de rua invadindo cada vez mais espaços, até que nós mesmos não consigamos mais respirar, sufocados em meio a tanta imundice social “normal”.