domingo, 22 de fevereiro de 2015

Por ser gay


Por ser gay

- Fui zoado por familiares, vizinhos e colegas de escola na infância e adolescência, antes mesmo de eu saber da minha sexualidade;

- Tudo que eu fazia e dizia era "estranho", " coisa de maluco", mesmo que fosse exatamente igual ao que todo mundo fazia/dizia - isso se chama deslocamento: quando você não quer falar abertamente do que te incomoda na pessoa, você fica procurando as mínimas diferenças pra zoar. E se não achar nenhuma, inventa;

- Professoras na escola deram poder aos meus colegas para me vigiarem e perseguirem, com impunidade, até que meti a mão na cara de um e fui parar na direção. Só aí pararam (um pouco) de me perseguir;

- Fui cantado por namorado de prima, namorado de colega, marido de amiga e até por colega de escola, os mesmos que me zoavam e até me hostilizavam abertamente em público, mas queriam experimentar em particular.

- Tive que abandonar estágio e interromper o processo de obtenção do diploma de técnico, porque não aguentava a pressão diária de colegas e chefes;

- Fui preterido em vaga de emprego e trocado por alguém muito menos qualificado, mas " normal" - limitaram-se a me dizer que "eu não seria feliz ali";

- Fui espancado em banheiro de escola, na rua, em porta de bar;

- Fui perseguido na rua, inclusive pela polícia;

- Sofri tentativa de estupro, mais de uma vez, porque "gay deve gostar de tomar";

- Sofri pressão emocional e psicológica de parentes e colegas que queriam que eu sumisse;

- Fui humilhado pelo meu próprio pai, que me disse que eu "morreria de AIDS, sozinho, antes dos 30, na sarjeta, porque esse era o destino de todos os pervertidos da minha laia".

- Fui expulso de casa, o que interrompeu meus planos de fazer faculdade e me forçou a procurar emprego. Mesmo voltando pra casa um ano depois, tinha que me sustentar e isso adiou minha vida acadêmica e crescimento profissional em quase dez anos;

- Fui preterido em concorrência para promoção no trabalho, apesar de ser mais qualificado, emfavor de um "macho" que saía com colegas casadas;

- Minha pesquisa de mestrado foi vista com preconceito, como "defesa de gueto" e demorei a ser levado a sério no meio acadêmico;

- Por fim, uma série de fatores externos à minha vontade interrompeu minha carreira acadêmica algumas vezes e causou atrasos que me levaram a só conseguir entrar para o doutorado agora, mais de vinte anos após ter começado a faculdade que já tinha começado atrasada em dez anos. Ou seja, trinta anos de atraso que não podem ser recuperados. Claro que a homofobia não foi o único fator, mas sem dúvida está na raiz de tudo. Os problemas com preconceito tendem a se acumular ao longo do tempo, tanto na vida quanto no coração, ocasionando problemas de baixa auto-estima, depressão e outros, que dificultam ainda mais o progresso.

E isso é apenas um resumo do resumo, sem muitos exemplos, pegando leve. Não vou expor os detalhes da perseguição diária, dos apelidos, das musiquinhas humilhantes, do jornal da escola pedindo "morte aos gays", das tentativas de exorcismo por fanáticos religiosos, das revistas em blitz apenas por andar sozinho na rua à noite, saindo da boate, nem da perseguição policial por estar andando com travestis e drag queens a caminho do trabalho na boate. Não estou postando isso aqui para pedir sua compaixão, mas para demonstrar um ponto:

Essa é só a minha história. Há outras muito, muito piores. Há histórias de pessoas que não sobreviveram. Há histórias de pessoas que ficaram cegas, paraplégicas, queimadas, amputadas, com dano cerebral permanente, só porque são LGBT. Eu sobrevivi, estou saudável, trabalhando, estudando, crescendo. Mesmo à beira dos 50 anos e com grandes atrasos, estou realizando meus sonhos.

Se você não sofreu alguma dessas coisas especificamente por ser heterossexual, repita comigo:

Heterofobia não existe.

"Orgulho hétero" é só uma falácia de falsa simetria; não tem que haver celebração de orgulho de quem não sofre perseguição.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Caricatura do Terror


Após um longo sono, o blog volta à atividade. Infelizmente, em vez de falar do que me levou a abandonar este espaço por cerca de seis meses e comentar os recentes desdobramentos políticos em relação à criminalização da homofobia e dos avanços do casamento gay nos EUA, venho aqui prestar minha homenagem aos jornalistas, cartunistas e demais funcionários do jornal semanal francês Charlie Hebdo, covardemente assassinados - até o momento, acredita-se que por extremistas islâmicos e o governo está tratando o assunto como um ato terrorista. A publicação é famosa por suas charges provocadoras e por transcender barreiras culturais e tabus.

Porém, não devemos nos deixar levar pela primeira impressão. Dizer que o ataque foi uma retaliação às charges da publicação que mostravam o profeta Maomé é uma leitura superficial. Se o ataque foi comprovadamente uma ação de extremistas islâmicos, deve -se deixar claras algumas questões: 

1) A charge não foi a "causa". Dizer que a charge foi a causa do ataque, ou que os cartunistas estavam brincando com fogo, é o mesmo que dizer que "uma mulher estuprada estava pedindo o ataque ao vestir roupas curtas". A causa do ataque foi o extremismo, que vê algumas coisas como intocáveis. O humor inteligente não deixa pedra sobre pedra, especialmente quando se trata de instituições e de fontes de opressão; as religiões organizadas estão entre as maiores e mais influentes instituições sociais do mundo e algumas delas também estão entre as maiores fontes de opressão - em especial opressão machista, homofóbica, transfóbica, racista e xenofóbica. E nada, absolutamente NADA, justifica violência, assassinato, genocídio, estupro e outros crimes bárbaros e hediondos. 

2) Os extremistas são uma minoria em uma religião que tem sérias questões interpretativas. Aqui, há na verdade dois problemas: Por um lado, não se pode negar que o Islã apresenta problemas nas nações em que é a religião oficial ou majoritária, porque sabemos que a interpretação dada à religião tem uma série de princípios morais e éticos que contradizem a liberdade civil e de expressão. Sim, a maior parte das interpretações oficiais do Islã ferem os direitos civis das mulheres e incitam a violência contra pessoas LGBT. Por outro lado, não se pode tomar o todo pela parte; a maioria dos islâmicos não sai por aí assassinando todos os gays que encontram, nem explodindo qualquer um que ouse falar do Profeta. Isso é trabalho de uma minoria; infelizmente, tal como acontece nas comunidades carentes, em que uma minoria de traficantes traz má fama e incentiva o preconceitos contra negros e pobres em geral, cada vez mais as pessoas (principalmente no Ocidente) temem os islâmicos em geral, ainda mais quando alguém fala sobre ou faz humor com Maomé. Com a ascensão da direita conservadora e xenofóbica na Europa em crise, é cada vez mais certo que esse episódio provoque sanções pesadas contra a população islâmica.

3) A violência não pode jamais ser vista como "Liberdade de Expressão Religiosa". Assim como é inconcebível que alguém usando como pretexto a religião, é inadmissível que se aceite que uma lésbica sofra "estupro corretivo", ou que gays sejam executados, ou que empresas se recusem a empregar pessoas trans, sob alegação de que elas são "pecadoras". Nem se pode permitir que lideranças religiosas usem concessões públicas de radiodifusão para propagar esses ideais retrógrados e absurdos. Menos ainda que "psicólogos cristãos" tentem cometer o ato hediondo de tentar modificar a sexualidade ou identidade de gênero de uma pessoa à força - ou pior, convencer essa pessoa de que isso é o melhor para ela.

Então, enquanto tenta digerir essa tragédia, faça dois exercícios mentais: 

1) Se começar a relativizar o caso e dizer "Mas, também, o jornal fez..." pare, PARE JÁ! Releia o item "1" duas, três vezes. E lembre-se: a culpa é sempre do criminoso, nunca da vítima.

2) Aproveite sua indignação contra essa falsa "liberdade de expressão religiosa" e repense suas posições quando começar a concordar com a ideia de que líderes religiosos podem pregar contra a diversidade sexual, que empregadores têm o direito de não empregar pessoas LGBT com base na sua religião e que a "cura gay" pode ser oferecida "a quem quiser mudar de opção (SIC) sexual".

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Vai dar (Vírgula) VTNC!



Esse texto se origina de um incômodo. Ainda estou trabalhando as razões reais do incômodo, mas ele existe e senti a necessidade de desabafar.

A situação: em 27 de junho de 2014, vi uma imagem no perfil de alguém no Facebook (a foto que ilustra este texto) e a achei engraçada. Uma piada simples e bem sacada, típica de ano eleitoral. A ‘vírgula que muda tudo’ é produto de Photoshop, não existe na imagem original. Como a pessoa (que nem lembro mais quem era) tinha configurações fechadas, copiei a foto e a compartilhei no modo público, diretamente do meu perfil. Achei a imagem engraçadinha e vi que alguns amigos (que certamente não votarão no PSBD) acharam o mesmo e compartilharam a imagem. Até aí, tudo bem.

Só que começaram a pipocar curtidas e compartilhamentos de pessoas que não conheço. Amigo de amigos. Amigos de amigos de amigos. Hoje (30/6) de manhã, a imagem tinha passado de DOIS MIL compartilhamentos! Meus amigos + seguidores mal chegam a 800. Já vi que a imagem também está circulando no Twitter, nem parei para ver o quanto (até porque não sei se estão compartilhando a imagem do meu perfil ou do perfil original, ou de qualquer outro).

E aí começaram, também, os problemas.

Nos perfis de pessoas que compartilharam, começaram a chover reclamações de partidários do PSDB chamando a imagem de ofensiva. Outros, não necessariamente partidários do PSDB mas que simplesmente detestam o PT e a Dilma, compararam o “Ei, Dilma, VTNC” da abertura da Copa com a mensagem “Vai dar, Aécio” da imagem. Alguns foram além, rastreando a imagem até a fonte – o meu perfil. Fui chamado de “Petralha”, homofóbico (?!) e “hipócrita” por defender os direitos LGBT e ter postado uma imagem “obviamente homofóbica”.

Eu poderia simplesmente deletar a imagem. Acredito que ela sumiria também dos compartilhamentos das mais de duas mil pessoas que a acharam engraçada (ou mesmo apropriada para o candidato em questão). Mas, se fizesse isso, estaria apenas fugindo da questão. E eu não sou de fugir de um debate.

Primeiro, meu maior incômodo (agora acho que já posso perceber isso claramente) foi a súbita atenção dispensada a um tópico tão vazio, uma imagem humorística. Eu posto quase todos os dias campanhas de adoção e de proteção de animais, campanhas pró-Direitos Humanos, notícias sobre Ateísmo, Humanismo e Secularismo, enfim, muita coisa útil, legal, importante. Acho que jamais passei de cem compartilhamentos. Aí eu (que nem sou petista) posto uma imagem engraçadinha e pronto, torna-se um viral. Isso me incomoda, mesmo. Sei lá, eu entendo que muita gente vê o Facebook como um canal de humor, de jogar conversa fora e postar fotos de animais fofinhos, mas eu realmente acredito na força das redes sociais para a comunicação interpessoal, para quebrar paradigmas da grande mídia e disseminar informações e conceitos importantes.

Segundo, achei a comparação indevida. Existe uma diferença radical entre:

1) um grupo de pessoas mandar a presidenta do país “VTNC” na televisão aberta, que chega a 98% dos lares brasileiros (em 2012 havia cerca de dois milhões de domicílios no país com TV e sem geladeira) e foi retransmitida para o mundo. Eu discordo de muita coisa que o governo atual fez, mas tenho quase certeza de que as pessoas que participaram do coro não discordam das mesmas coisas que eu. Crítica, sim, vaia sim, xingamento não; e

2) uma imagem sugerindo que o principal candidato de oposição “vá dar meia hora de c*” para ver se ele se acalma, para de falar bobagens e planejar a privatização do país (que, convenhamos, é o que o PSDB faz; o partido acredita piamente no Estado Mínimo e na aplicação das leis de mercado aos serviços públicos).

Terceiro, não acho a mensagem homofóbica. Eu sei que muitas pessoas acharão, inclusive militantes. Sexo acalma mesmo e pode dar uma nova perspectiva às pessoas, é uma realidade. Eu nem ligo para as piadas que fazem com o suposto vício do candidato por cocaína, da mesma forma como não ligava para as piadas com o suposto alcoolismo do Lula. Se a pessoa tem comportamentos socialmente questionáveis que podem interferir com seu poder decisório e sua capacidade de realizar bem o seu trabalho, isso deve ser tratado. E fazer sexo não é um comportamento socialmente questionável, nem interfere na capacidade decisória da pessoa (a menos que seja em excesso, como tudo, aliás), por mais que os conservadores de plantão afirmem o contrário.

Respeito meus amigos petistas, psdbistas, psolistas, pcdobistas, anarquistas etc. Não respeito quem quer que faça alianças com a Máfia, digo, o PMDB, nem com o Diabo, digo, a Bancada Evangélica, nem com os coronéis, digo, a Bancada Ruralista. 


Eu discordo de muita coisa que o atual governo fez e ainda faz, especialmente na área de Direitos Humanos, em nome da tal “governabilidade”, rifando direitos das mulheres e da população LGBT em troca de pactos com o Diabo, com a Máfia e com os coronéis – mas isso ainda é contornável. Discordo de várias outras coisas que os dois mandatos seguidos do PSDB fizeram com o país, algumas irreversíveis. E acho mesmo que se o Aécio fosse dar meia hora, talvez ele enxergasse o mundo de outro jeito. Não vou tirar a imagem do meu perfil. Podem me mandar TNC que eu não ligo.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Harry Louis e o beijo entre homens: de quem é o "problema"?


A propósito da falsa polêmica em torno do Harry Louis, acho que valem algumas reflexões para você, que está aí todo incomodad@ com o casal de homens jovens e belos que trocam beijos e carinhos em público e aparecem nas notícias de jornais.

1- É uma falsa polêmica. Eles são um casal como qualquer outro e têm o mesmo direito garantido que qualquer outro casal de trocarem beijos e demonstrações de afeto em público. Não existe nada de "pornográfico" ou "desrespeitoso" nisso.

2- Os sites especializados em celebridades publicam, todos os dias, notícias e fotos de pessoas famosas namorando e exibindo seu afeto em público. Se alguém vê algo de "diferente" nesse casal, o problema não está no casal, está em quem vê a diferença.

3- Se você é heterossexual e você vê um "problema" em um casal de homens trocando beijos em público, você tem um problema chamado "homofobia". Não, não são as crianças que vão ficar confusas ao ver o casal. Não, não há crime, doença ou transgressão no beijo dos dois. O problema está em você, mas ele pode ser revertido. Homofobia tem cura.

4- Se você é gay, lésbica, bissexual ou trans e você vê um "problema" em um casal de homens trocando beijos em público, você tem um problema sério, chamado "homofobia internalizada". Significa que você, em algum momento, aceitou a discriminação que sofremos diariamente desde a infância e a assimilou na sua cultura, no seu comportamento, na sua vida. Você agora reproduz o discurso do "respeito" ao preconceito alheio, sem se dar conta de que esse discurso fere o direito do casal e o seu próprio direito. Não se preocupe (muito), não é "culpa" sua, ninguém está te acusando (ainda). Mas, ainda assim, é um problema que devia ser tratado. Homofobia tem cura, inclusive a internalizada. Começa com uma mudança em como você vê você mesm@ e passa pela forma como você deseja ser tratad@ pelas outras pessoas. Sim, pode ser difícil e até perigoso demonstrar afeto em público. Mas, mais uma vez, o problema não é o afeto em público, é a homofobia das pessoas em volta.

5- Se você acha que "não é homofobia, porque casais heterossexuais também não deviam trocar beijos em público", você tem, além da homofobia, um outro problema, chamado anacronismo. Você está na década errada, no século errado. No Brasil, até mais ou menos os anos 70, um casal heterossexual que trocasse beijos apaixonados na rua ou em um restaurante ou praça ainda podia ser abordado pela polícia e advertido sobre "atentado ao pudor", mesmo o beijo não sendo um dos atos incluídos na lei que define os atos obscenos. Acho que nunca foi, mas precisaria verificar nas leis. De qualquer forma, isso foi há 40 anos! O tempo passou, as coisas mudaram. Estamos passando por uma onda de conservadorismo que eu não vida desde o pós-AIDS de meados dos anos 80. Certamente há países, hoje, em que o beijo ainda é considerado um ato imoral se praticado em público. São os mesmos países em que os direitos da mulher são violados diariamente ou inexistentes, a homofobia rola solta e há "códigos morais" para controle populacional. Não queremos viver nesses países, certo? Então não devemos tornar o Brasil igual a eles.

6- Se você é gay, lésbica, bissexual ou trans e você acha "bem feito" quando um casal homoafetivo é expulso de um restaurante ou sofre agressão na rua ou na praia, só porque estavam trocando beijos e carinho em público, você não apenas tem homofobia internalizada. Você tem outro problema, chamado recalque (nos dois sentidos, psicanalítico e da Valesca): por um lado, você provavelmente tem algum episódio traumático que está bloqueado no fundo das suas memórias e que direciona sua atitude negativa em relação à exposição pública de afeto, especialmente dos casais homoafetivos - e, em vez de cuidar disso e tentar se resolver com seus problemas, você projeta nos casais todo o seu dilema, seu ódio, sua frustração. E, por outro lado, você deve ter uma profunda inveja da liberdade que esses casais demonstram ter - e novamente você projeta neles seu ódio e sua frustração.

Se você se enquadra nos casos 3, 4 ou 5, você tem um problema, mas pode resolver isso. Se precisar de ajuda, estou aqui pra isso também. E há várias pessoas muito legais que podem ajudar. Agora, se você se enquadra no caso 6, você pode me excluir da sua vida e ir se tratar. Agora, preste atenção: com "se tratar" não quero dizer que você deve entrar para um "centro de reabilitação e cura de gays" patrocinado por uma igreja, quero dizer que você deve procurar tratamento de verdade e ir curar seus recalques e sua homofobia, que já chegou no nível patológico da incitação à violência.

domingo, 9 de março de 2014

Faxina, oferta e projeto especial - ou, sobre porque é importante fiscalizar e tributar os templos religiosos



Enquanto estou fazendo a faxina de domingo, ouço perfeitamente a voz do pastor na Igreja Mundial ao lado da vila onde moro.

No início, o sermão é inspirado. Nem parece que são menos de 8h da manhã de um domingo ensolarado, depois da chuva forte de sábado. 

O pastor anima a igreja, puxa o canto gospel acompanhando o CD (ele canta muito mal, então só puxa o refrão falando cada estrofe).

Ele faz uma sessão matinal de descarrego com o método de repetição frase a frase ("E agora vocês dizem 'Meu Deus'" e a igreja repete...), puxa a leitura do texto bíblico usando perguntas breves (Ele lê "E Deus disse a Moisés..." e pergunta alto "E o que foi que Deus disse a Moisés, gente?"), faz um culto interativo e dinâmico. As pessoas parecem animadas.

E, lá pelas tantas, ele pede a oferta. Ele começa alto, pedindo R$ 100: "Quem pode ofertar 100 reais, gente? A festa do Diabo acabou, os bancos abriram, o salário foi depositado, as contas já foram pagas... Quem pode ofertar para as obras da Igreja, em nome de Jesus? Eu pelo pra mim ou peço para a Igreja?" e o povo fala meio sem jeito "Para a Igreja". 

Pelo jeito, ninguém se voluntariou. Ele baixa para R$ 50 e insiste mais um pouco. Pelas vozes, parece que um ou dois se prontificam. Ele continua baixando, pelo valor das notas: 20, 10, 5, 2... Quando chega em 2, ele comenta "É menos do que a passagem de ônibus, gente". Aí muito mais gente se prontifica. Mesmo assim, há quem não se manifeste, porque ele logo depois pergunta "quem aqui está duro, levante a mão. Quem pode dizer 'Pastor, eu estou duro', com a mão na consciência, em nome de Jesus?" Alguém deve ter levantado a mão, porque ele chama as pessoas à frente para receber uma bênção especial "Para que na próxima vez que você vier à Igreja, você possa contribuir para a obra de Deus". 

Passada essa fase de constrangimento, o pastor começa a falar de um projeto especial da Igreja. Ele se entusiasma, fala de uma viagem a Jerusalém, ao Rio Jordão, uma entrega que ele fará de pedidos diretamente ao Altar de Deus. As pessoas se exaltam, muitas gritam "Aleluia, Jesus". Aí ele pede novamente - agora, para o projeto especial - ajuda à Igreja. Ele diz "Não é para todo mundo não, é só para alguns escolhidos de Deus. Deus escolhe quem pode ajudar nesses projetos. Ele lhe dá meios de ajudar. Quem poderá contribuir com R$ 300 no fim do mês? Esse é o prazo que Deus está lhe dando para fazer sua escolha. Não é hoje, não é agora. No fim do mês, você terá a chance de contribuir com esse projeto especial e enviar seus pedidos pessoais, que eu e os pastores levaremos diretamente ao Altar do Senhor em Jerusalém. Quem não puder, não se envergonhe. Nós traremos água sagrada do Rio Jordão para lavar suas cabeças e levar embora seus pecados. Quem puder, quem sentir o Poder de Deus operando na sua vida e puder contribuir com R$ 300, poderá fazer a lista de pedidos. Quem puder contribuir com menos, não se preocupe que eu vou reservar a água sagrada para você. Levantem as mãos e avisem às obreiras, para que eles lhes passem os boletos. Isso é em nome de Jesus, pessoal!"

E assim, quando falamos na forma como as igrejas tiram dinheiro das pessoas necessitadas, os pastores respondem que tudo é voluntário, que ninguém é obrigado a doar nada. 

Quando você credita que deve sua vida e tudo o que você tem a um Deus e uma "autoridade eclesiástica" pergunta diretamente se você tem 100, 50, 20, 10, 5, 2 reais para contribuir para a "obra da Igreja", em contagem regressiva (e proporcional aumento de constrangimento), o que você faz? 

Quando você admite que não tem nada e ele te chama para vir à frente "receber uma bênção para que possa contribuir na próxima vez", o que você fará na próxima vez que vier à igreja?

Quando essa mesma "autoridade eclesiástica" afirma que você é "escolhido por Deus" para ajudar em Sua Obra e chama pela sua consciência, dando um prazo de um mês, o que você faz? 

É tudo voluntário? Não há obrigação? Ninguém é coagido? OK... 

Toda instituição, toda estrutura precisa de dinheiro para sobreviver. Isso é um fato. Existem alugueis de espaço, manutenção, equipamentos, serviços... Mas, eu frequentei Candomblé por mais de 20 anos, uma religião em que a contribuição era voluntária, era um valor fixo ordenado pelo que a pessoa com menos posses poderia pagar e não havia cobranças nem obrigações. E quando faltava algo para o ritual de uma pessoa, todas as outras ajudavam como podiam. Até há casas que cobram mensalidade, mas as pessoas que não podem pagar contribuem com serviços e muita devoção. 

Não existe nenhum canal de TV ou estação de rádio de posse de espíritas, candomblecistas, umbandistas, wiccanos, seguidores de Krshna, budistas ou islâmicos. Alguns mal têm programas nessas emissoras. Praticamente não há políticos em cargos-chave do Legislativo ou Executivo que professem abertamente essas religiões. Não vejo nenhuma dessas religiões sendo intolerante ou atacando as outras. Toda vez que um pastor fala em "liberdade de expressão religiosa" eu me lembro disso e penso como nosso mundo é desequilibrado nesse sentido. E ainda há quem defenda a isenção fiscal de templos. 

Todo o movimento contra a intolerância religiosa no Brasil se resume a enfrentar e intolerância de uma única religião dividida em centenas de denominações (inclusive algumas que participam desse movimento). Vale pensar sobre isso.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Sobre beijos entre homens - ou, porque o mundo não acabou na sexta-feira



Por motivos acadêmicos e pessoais, esse post será longo. Peço que tenham paciência.

Na sexta-feira, 28 de janeiro de 2014, a Rede Globo encerrou a novela "Amor à vida" com uma sequência emocionante: primeiro, Felix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) se despedem trocando juras de amor e com singelos beijos; depois, Felix leva o pai Cesar (Antonio Fagundes) até à praia e, lá, pai e filho se reconciliam após tantas armações, brigas e frustrações. 

Felix, que começou a novela como vilão, foi se redimindo e modificando suas ações ao longo da trama, graças em grande parte ao afeto recebido por Niko, o "carneirinho". Este, por sua vez, no início da história era casado com Eron (Marcello Antony) e queria um filho, fosse por adoção ou barriga de aluguel. Depois de muito sofrer com as mentiras e os golpes de Amarilys (Danielle Winits) e a separação de Eron, ele descobre o amor, dessa vez verdadeiro, ao lado daquele foi antes era a "bicha má".

A evolução dos dois personagens, no meu entender, seguiu "comendo pelas beiradas" os furos deixados pelos outros, tanto o "casal protagonista" (cuja atuação foi super criticada desde o início) quanto os personagens que de alguma forma se relacionavam com Felix e Niko. Surgiram tantos podres no passado e tantos deslizes morais e éticos em tanta gente, que em determinado momento não se sabia mais quem era o vilão ou a vilã de verdade da novela - mas certamente não era mais o Felix. Esterótipos à parte (pois eles também cumprem seu papel na formação de identificações do público com a trama), os dois assumiram (literalmente) a posição de casal principal nos corações e nas mentes da população. E isso propiciou o cenário favorável à transmissão do beijo homoafetivo masculino - ou "beijo gay" - em horário nobre. 

Muito se falou e ainda se fala sobre o "beijo gay". As mais diferentes reações surgiram na internet nos últimos dias. A própria Globo, no seu típico estilo "morde e assopra", emitiu à imprensa uma nota explicativa justificando a transmissão do beijo e um vídeo excusivo, quase um minidocumentário, com opiniões do autor, diretor geral e atores envolvidos nas últimas e impactantes cenas (e que, por ser exclusivo da emissora, não reproduzirei aqui. O link é este). Então, ela ao mesmo tempo satisfaz os anseios das minorias LGBT e simpatizantes e "tira o seu da reta" com quem "não gostou", ou "achou desnecessária" a cena, ou ainda quem condenou ou ainda condenará abertamente a emissora por "depravação", "propaganda gay" e "destrução da família", especialmente líderes religiosos e políticos conservadores. 

Ao mesmo tempo, por um lado, houve quem dissesse que a mera exibição da cena destruiria famílias; e, por outro, houve depoimentos emocionados de jovens LGBT que, graças a esse clímax emocionante no último capítulo, começaram a ver uma mudança positiva em suas vidas, um início de conciliação com suas famílias, especialmente seus pais - e nós sabemos que o pai geralmente é a primeira pessoa da família a discriminar filhos/as LGBT, chegando a medidas drásticas como a expulsão e deserção. Ou seja, aconteceu exatamente o contrário do que os fundamentalistas e conservadores alegavam. E é exatamente esse o seu medo: que as  
pessoas LGBT se reconciliem com suas famílias. Famílias plenamente integradas e felizes tendem a buscar menos aconselhamento com pastores neopentecostais que vivem da "indústria da desgraça e do pecado", tendem a frequentar menos os "cultos de desencapetaento e vitória" e, consequentemente, pagam menos dízimo e votam em menos candidatos dessas igrejas. Essas lideranças religiosas dependem da desgraça, da miséria e da desestruturação familiar para continuar existindo e se fortalecendo.

Mas, além dessas reações esperadas, houve manifestações discordantes dentro dos próprios movimentos sociais. Houve, obviamente, muita celebração; mas também houve quem se colocasse ao lado da tendência conservadora e dissesse que a cena do beijo foi "desnecessária" (típico sintoma de homofobia internalizada); houve quem reclamasse do termo "beijo gay", afirmando que devia ser apenas um "beijo" como outro qualquer; houve quem esvaziasse o significado simbólico da cena e das circunstâncias que levaram até ela, afirmando que novela não forma opinião pública; e houve quem alegasse que o "beijo gay" já aconteceu antes na TV mundial, na TV aberta nacional e até na Rede Globo, portanto não havia tanta novidade assim.

Não vou me deter na homofobia internalizada de quem insiste em que é melhor que sejamos invisíveis, para "não atrairmos atenção excessiva de nossos opositores", ou que acha que "a sociedade não está preparada, ou não é obrigada" a nos ver manifestando afeto em público. Já falei sobre essas questões antes e postei um ótimo artigo do amigo jornalista e ativista João Marinho sobre gays homofóbicos.

Para quem discute o termo "beijo gay" como "discriminatório", vale lembrar que a estrutura do movimento social é identitária e afirmativa; primeiro é preciso criar visibilidade, para depois "naturalizar", ou seja, inserir algo na cultura cotidiana de tal forma que não seja mais necessário falar sobre o tema. Foi assim que aconteceu com o voto feminino (que passou a ser apenas "voto") e com o casamento interracial (que passou a ser "casamento"). Assim como é preciso, nessa etapa, dar visibilidade ao casamento homoafetivo como direito civil inequívoco, é preciso dar visibilidade a um direito civil anterior e igualmente inequívoco, que é o direito à livre manifestação de afeto em público. O beijo é garantido a todas as pesssoas, inclusive às LGBT e não existe, sequer, restrição na Classificação Indicativa (o sistema do Ministério da Justiça que substitui a antiga Censura Federal) que crie distinção entre tipos de beijo na televisão. Não existe "pornografia" no beijo homoafetivo. Estando em idade legal, ninguém pode impedir ninguém de beijar.

Sobre a enorme e contínua influência das telenovelas na formação da cultura nacional, eu nem preciso me esforçar muito; fazendo autopropaganda acadêmica no melhor estilo "Roberto DaMatta", minha dissertação de mestrado resume bem os vários estudos feitos até 2005 sobre a participação cotidiana da telenovela na vida brasileira; basta procurá-la na Biblioteca Digital da Uerj, com o nome "Do armário à tela global: a representação social da homossexualidade na telenovela brasileira". A bibliografia é bem abrangente.

E, finalmente, sobre o "beijo gay que já aconteceu várias vezes", vale destacar, antes de qualquer coisa, uma questão conceitual: há quem defenda que "beijo gay" é qualquer beijo afetivo de qualquer pessoa LGBT, enquanto outras pessoas defendem que o termo só se refere aos gays; entre mulheres, seria "beijo lésbico" e assim por diante. Então, levando em consideração as duas coisas, segue uma lista resumida:

Em 1964, no Teleteatro da extinta TV Tupi, Vida Alves e Geórgia Gomide protagonizaram o primeiro beijo homoafetivo entre mulheres. Alves, inclusive, já tinha protagonizado o primeiro beijo com um homem na mesma emissora, em 1951. Em recente entrevista, ela comentou que houve críticas conservadoras, mas nada tão sério.

Em 1974, já na Rede Globo, em "O Rebu", de Bráulio Pedroso, o público viu o primeiro casal de homens na TV, mas só soube com certeza no último capítulo. Conrad Mahler (Ziembinski) e Cauê (Buza Ferraz) viviam uma relação de sustento financeiro e "posse", o que levou o conde a cometer o "crime passional" que movimentou a trama de mistério. Como seria de se esperar, não houve demonstração de afeto.

Em 1985, em "Um sonho a mais", de Lauro César Muniz e Daniel Más, ocorre o primeiro beijo (um selinho) e casamento entre dois homens, protagonizados pelos personagens Volponi (Ney Latorraca) e Pedro Ernesto (Carlos Kroeber). Só que Volponi estava caracterizado como Anabela Freire, um de seus diferentes disfarces na novela, sem o conhecimento de Pedro Ernteso. Mesmo sendo uma trama burlesca e totalmente baseada em farsa, a opinião pública não aprovou o excesso de personagens fazendo crossdressing. Nesse contexto, o beijo passou despercebido. Então, em termos gerais, "não valeu". Vale ressaltar uma nota pessoal: nesse ano eu tinha saído do armário e estava enfrentando sérios problemas em casa. Esse foi o primeiro beijo entre dois homens que vi na televisão e, mesmo com toda a farsa envolvida, devo dizer que foi um alívio, dando-me esperanças de um dia ver uma cena séria de amor entre iguais numa produção da emissora.

Em 1990, na extinta Rede Manchete, o episódo "Ossayn" da minissérie "Mãe de Santo" de Henrique Martins, mostrou o relacionamento entre Lucio (Rai Alves) e Rafael (Daniel Barcelos), coroado com um beijo filmado em silhuetas. Foi o primeiro beijo de casal masculino em uma relação de afeto a ser mostrado na TV. Esse foi um dos aspectos mais polêmicos da minissérie, que já era considerada arrojada e pioneira por mostrar personagens negros e as tradições do candomblé em destaque. Os dois recentemente comentaram sua surpresa e tristeza por, em 2014, ainda se debater a homossexualidade como algo "diferente" e o beijo homoafetivo ainda causar impacto.

De volta à Globo, em 1993, "Renascer", de Benedito Ruy Barbosa, trouxe com algum destaque a questão da intersexualidade, através da personagem Buba (Maria Luísa Mendonça), que tinha um relacionamento com José Venâncio (Taumaturgo Ferreira) e, mais tarde, com seu irmão José Augusto (Marco Ricca), um médico que a convencia a fazer uma cirurgia para se tornar uma "mulher completa". Os dois se casaram no final, com direito a beijo. Porém, era uma mulher fazendo o papel de uma pessoa intersexual, logo não se tratava de um relacionamento homoafetivo.

Em 2001-2002, a novela "As filhas da mãe" de Silvio de Abreu trouxe Ramona (Claudia Raia), uma mulher trans* que tinha um final feliz ao lado de Leonardo (Alexandre Borges), com direito a beijos e carinho. Porém, além de ser uma novela cômica com viés burlesco, a personagem trans era encenada por uma mulher, o que diluía o impacto da relação; mesmo assim, a obra não fez o sucesso esperado e teve até alguma rejeição popular. De qualquer forma, por ser uma personagens trans FtM, não era um relacionamento homoafetivo.

Em 2003, as personagens Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli), em "Mulheres apaixonadas", de Manoel Carlos, tiveram algumas cenas de intimidade, inclusive tomando banho juntas. Mas, o beijo do casal só veio no último capítulo, dentro de uma encenação de "Romeu e Julieta", com Rafaela no papel do trágico heroi. Foi um beijo técnico, parte da encenação e carregado de metáforas sobre a relação das duas (que já fazia parte do imaginário masculino, como fetiche). E poucos minutos depois vieram os beijos de todos os outros casais da novela, dissipando o efeito do beijo entre as meninas. Foi um passo importante, mas ainda tímido, para a emissora.

Em 2005, em "América" de Gloria Perez, a comunidade LGBT passou por uma de suas maiores decepções. A cena do beijo entre Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro) foi escrita e chegou a ser gravada, foi anunciada informalmente pela autora e pelos atores, mas, no último capítulo, pode-se ver um corte repentino na cena em que os dois estão distantes dos demais personagens e aproximando seus rostos. A frustração foi compartilhada pela autora, que celebrou o beijo em "Amor à vida".

Em 2008, na minissérie "Queridos amigos" de Maria Adelaide Amaral, Benny (Guilherme Weber) e Pedro (Bruno Garcia) tiveram uma cena de "beijo roubado". Mas, novamente, não era um situação exatamente amorosa e não foi em uma novela de horário nobre.

Ou seja, de todo modo, ainda não tinha havido na Rede Globo uma cena que justificasse o título de "primeiro beijo gay". O que não seria admissível, sendo ela a emissora de maior alcance junto à população, especialmente as populações de baixa renda, as do interior do país e as com menos acesso à TV por assinatura. Faltava aparecer um ato de amor real e sincero entre dois homens, coroando um relacionamento ao final de muita luta e perseverança, no melhor estilo teledramatúrgico.

Foram muitos momentos, muitas tentativas, erros, tropeços e recuos. Mas, finalmente, quebraram-se dois tabus: o da família homoafetiva como uma família normal, com a relação coroada pelo beijo; e o tabu do relacionamento entre o pai machista e homofóbico e o filho gay, que terminam reafirmando seu amor um pelo outro. Impossível não se sensibilizar com a delicadeza com que os temas foram tratados no final da trama. A novela certamente teve seus problemas de ritmo, verossimilhanças etc., mas essas cenas finais foram bastante realistas. E que elas abram espaço para uma posterior "naturalização" (ou seja, inserção na cultura popular) tanto do beijo quanto do relacionamento familiar saudável das pessoas LGBT. Porque a arte, realmente, imita a vida.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A Primeira Impressão

No final da década de 1980, quando eu fiz a primeira entrevista para comissário de bordo, um dos entrevistadores me perguntou: 

“Você é gay?”

Assim, na lata. Eu, prontamente, respondi “Sim”. Afinal, anos antes eu havia saído do armário para minha família e colegas de escola, feito alguns anos de terapia (que meus pais erroneamente achavam que iria me “curar”, mas só fortaleceu minhas convicções) e estava mais do que tranquilo em relação à minha sexualidade. Sim, eu ainda pegava e namorava mulheres, mas a maioria das pessoas considerava (e ainda considera) que “bissexuais não existem, é tudo medo de se assumir” e aquilo poderia soar como “insegurança” da minha parte. 

Mais tarde, descobri que aquela era a “resposta certa”. Autodeclarar-se gay dava pontos extras no processo seletivo para comissários. Por quê? Porque as companhias aéreas acreditavam que “gays são mais bem educados, são mais atenciosos e empáticos, além de mais inteligentes e refinados” do que homens heterossexuais. Apesar de ter parecido uma coisa “positiva” à época (apesar de eu não ter seguido carreira e ter preferido ficar em terra, trabalhando no aeroporto), hoje eu sei que aquilo não passava de preconceito.

Sim, preconceito, ao comparar, nitidamente, gays a mulheres. Considera-se que a mulher é “naturalmente mais empática e refinada” do que o homem; o mesmo é dito do homem homossexual. A sexualidade, mais uma vez, é confundida com identidade de gênero e considerada como fator preponderante do comportamento e das relações sociais, chegando a interferir na prática profissional. Não importava muito se eu tinha experiência anterior com passageiros, ou se eu conhecia geografia, ou mesmo se eu sabia lidar com pessoas; ser gay já me abria uma ampla vantagem sobre outros candidatos; por outro lado, ser gay seria a principal razão para algumas portas profissionais se fecharem na minha cara, alguns anos mais tarde. 

O preconceito existe em todos os níveis e, de um modo geral, é expresso em duas etapas: 

Na primeira, você olha uma imagem, uma pessoa, uma situação, com algum conhecimento prévio, e sua mente começa a elaborar ideias e pressupostos para entender aquela situação em termos que você compreenda.

Na segunda, já existem pressupostos profundamente assimilados pela cultura, um imaginário formado, que leva a conclusões instantâneas, geralmente negativas, sobre o que se viu na primeira etapa.

A passagem de uma etapa para outra é quase – quase – imediata, desde que haja os tais pressupostos. E, infelizmente, o mais comum é que eles existam em grande profusão. Cada pessoa reage a diferentes situações segundo um número relativamente limitado de respostas preestabelecidas; qualquer coisa, além disso, causa tremenda insegurança, porque as “respostas certas” (mesmo que sejam completamente erradas) não estão lá para guiar nossa visão.

Então, quando eu vi a matéria do jornal Extra sobre a viagem da família de Ronaldo Nazário à Espanha e as fotos, eu percebi que havia uma mensagem sendo passada ali. Mas, isso foi no segundo momento. A minha primeira impressão, como a da maioria das pessoas deve ter sido, foi: fotos de uma família feliz e, em maior número e com mais detalhes, fotos de dois rapazes felizes, conversando e brincando. Um deles, eu soube lendo o texto, era o filho mais velho do Ronaldo, chamado Ronald, de 13 anos. O outro foi descrito como “um amigo”. Até aí, nada.

Crédito da imagem: jornal Extra, 16/07/2013.


Aí, eu olhei mais atentamente as imagens. Ainda na primeira impressão, os dois são rapazes felizes. Para mim, são feios: um deles tem uma franja alisada que eu não curto e os dois provavelmente precisam de aparelho nos dentes. Mas, e daí? São felizes, a família do Ronald é rica, estão em um momento de descontração. O que me chamou mais atenção foi a quantidade de fotos dos dois em relação às fotos dos outros. E as poses e expressões. Como todo mundo sabe (ou devia saber) nada na mídia acontece por acaso e não há “isenção jornalística”. As imagens e a menção ao “amigo” sem nome claramente tinham uma função, uma intenção. Não precisava ir muito longe para ver: as imagens davam a nítida impressão de ser um casal de namoradinhos felizes na expectativa de uma viagem à Europa. OK. Foi a minha primeira impressão, baseada em pressupostos preexistentes: a imagem dos dois, as roupas, o cabelo, os sorrisos e a cumplicidade fraternal. Amigos ou namorados? Não importa. 

Ao longo do dia, vi outros sites reproduzindo as mesmas fotos (agora já sem as fotos das outras pessoas) e dizendo coisas como “a amizade é linda”, “o amor é lindo”, “olha a descontração do filho do Ronaldo com um amigo” etc. Para quem não sabe, a própria menção de “amigo” na imprensa, é uma ferramenta tradicional quando se trata de um possível relacionamento gay. Aí veio a segunda impressão: o tomo jocoso e irônico dos sites brincava com a possibilidade de ser um casal, de forma um tanto pejorativa.

Aí, no Facebook, vi que muita gente reproduziu as matérias e também os comentários. Nas várias comunidades LGBT de que participo, a maior parte dos comentários que vi foram sobre com os dois eram “feios, mas felizes”, ou como se pareciam com frequentadores do Cine Ideal. Já entre os heterossexuais, vi inúmeras manifestações de discriminação contra os meninos, inclusive fazendo alusão ao incidente de Ronaldo, pai, com as travestis, há alguns anos. Houve alguns comentários assim entre gays, mas inegavelmente a imensa maioria foi em grupos de maioria (se não totalidade) heterossexual.

Dali a pouco, Ronaldo disse que vai “processar os responsáveis pela perseguição ao seu filho”. E começou uma profusão de artigos em blogs e notas no FB falando sobre como “a comunidade LGBT é homofóbica”, como “os gays têm homofobia internalizada e reproduzem a perseguição que sofrem”, como “as pessoas têm inveja da felicidade da família Nazário” etc. Alguns desses artigos foram parar nas mesmas comunidades e – surpresa! – algumas das mesmas pessoas que haviam criticado as imagens passaram a criticar a homofobia dos comentários anteriores. 

Bom, passadas as primeiras impressões, vamos aos fatos:

- O primeiro jornal a publicar as fotos deu ênfase às imagens dos dois e foi seguido pelos demais. De novo: não precisa pensar muito para ver que a mídia estava capitalizando em cima da imagem “gay” dos rapazes, dos estereótipos e até do incidente do passado do Ronaldo.

- A comunidade LGBT, de um modo geral, só é reconhecida como comunidade pelos opositores dos direitos civis em momentos “negativos”. Quando é para falar de direitos humanos e igualdade, “não é uma população”, “são elementos isolados”, “não é preciso fazer leis para casos esparsos” etc. Já quando é para falar de “reprodução do preconceito”, “vitimização” e outras críticas, todos os “casos esparsos” se transformam em comunidade e a minoria é vista como uma maioria.

- Dito isso, sim, houve uma primeira impressão de que os dois seriam gays. Namorados ou não, isso não importa. A questão nem é essa, mas se refere ao que eu, lá em cima, chamei de “segunda etapa”: quase imediatamente após se estabelecer o pressuposto de que os dois seriam gays (o que não é homofóbico per se), surge o pressuposto de que isso seria, de alguma forma, “negativo” (aí, sim, existe a homofobia). Muitos gays apenas ressaltaram o fato de que os dois parecem gays, sem juízo de valor. 

- Então, a homofobia que permeia toda a nossa cultura e sociedade mais uma vez se manifestou, tanto entre a maioria heterossexual quanto (parcialmente) entre os gays. Sim, ela deve ser combatida. Mas daí a dizer que “a comunidade gay destilou veneno homofóbico”, que “os gays são os maiores culpados pelo preconceito que sofrem” é fazer o jogo do inimigo. Acho que é preciso repensar não apenas a atitude homofóbica de quem manifestou alguma expressão negativa sobre os dois, como também a reação desmedida e as críticas instantâneas que surgiram.

A propósito, eu nem tinha notado a tal “mochila infantil rosa” que um dos rapazes estava usando. Distração mesmo, sabem? Tive que olhar as fotos de novo depois que isso foi levantado a questão como agravante da homofobia internalizada. “Então um rapaz não pode usar rosa?” Claro que pode! Só que não foram os gays que inventaram que rosa é coisa de menina (ou de gay), foi a sociedade. O mesmo com a tal foto dos dois conversando na porta do banheiro, como se "fossem fazer pegação". Nem tinha pensado nisso, minha primeira impressão foi "que coisa chata, esperar voo na porta do banheiro".

Então, novamente: menos, galera. Vamos criticar a homofobia, sim; vamos nos repensar, nos reeducar, mas assim como não podemos cair na armadilha fácil da reprodução do preconceito, não devemos cair na outra armadilha, que é usar o mesmo discurso dos nossos opositores, contra nós mesmos.