Não sei se o apresentador Fausto Silva, o “Faustão”, foi sempre obeso. Não me preocupei em fazer pesquisa no Google nem na Wikipedia sobre ele (nem sei o que encontraria além da biografia oficial). Se Faustão foi uma criança obesa, provavelmente deve ter sentido o peso do preconceito que essas crianças ainda hoje sofrem. Mesmo quando a obesidade infantil não era tratada como doença e distúrbio, o "gordinho da escola" já era enxovalhado pelos colegas, tratado como "engraçadinho" e "fofinho" pelas meninas (mas com poucas chances de arrumar uma namorada) e estava na fila dos últimos a serem escolhidos para os times de Educação Física. Entre os últimos, mas nunca sozinho: ao seu lado, lá estava o garoto franzino de óculos – o "CDF", a quem só restava ser ótimo aluno para ter qualquer tipo de visibilidade (o que acabava reforçando o estereótipo e isolando-o ainda mais). E, se nenhum dos dois fosse gay em fase de descoberta, provavelmente haveria um nesse grupo também. A sociedade é cruel com seus "diferentes" e as crianças e adolescentes aprendem rapidamente a reproduzir o preconceito e a discriminação. Talvez essa tenha sempre sido uma das lições mais fáceis de se aprender na escola: repetida arduamente todos os dias, por colegas, professores, inspetores, secretárias e agentes de serviços gerais, acaba se incrustando na mente e no comportamento das crianças, à guisa de "normalidade". Esse, aliás, é o grande problema dos estereótipos: suas vítimas são coagidas pela sociedade de tal forma que acabam vendo-se obrigadas a reforçá-los ainda mais, repetindo um ciclo.
Não sei se ele foi discriminado na infância, ou se teve a sorte dúbia de ter sido um "gordo feliz" – como são chamados aqueles que se fazem de engraçados e simpáticos, que são a "alegria da festa" e, por isso, são mais facilmente tolerados, mas nem por isso são mais felizes de verdade. Esse, afinal, tem sido o papel social do homem obeso – ser simpático e engraçado, preferencialmente fazendo graça com a própria obesidade (e, por sinal, também é um dos principais papéis sociais do gay, na busca da aceitação)
Não é a toa que muitos humoristas famosos foram e são obesos. Assim também com apresentadores "engraçados". Para quem não se lembra, Faustão ficou famoso antes da Globo. Ele apresentava o "Perdidos na Noite" nas noites e madrugadas de sábado, um programa alternativo e politicamente incorreto, cheio de improvisos e com baixo custo de produção. Lá, ele podia falar o que bem entendia (o programa estava além dos horários problemáticos para a Censura), sem medo de destilar venenos e disparar para todos os lados. Como aconteceu com tantos outros sucessos de emissoras concorrentes, a Globo o tornou parte de sua programação diurna e "familiar", o que inevitavelmente impõe algumas mudanças sérias no seu perfil.
Vivemos numa cultura de culpa – e numa cultura de culpa a sobrevivência acaba dependendo de se buscar álibis apropriados, desculpas convincentes e/ou bodes expiatórios. O humor sempre lidou com a ridicularização do "diferente" e com o fortalecimento de estereótipos. Creio que todo mundo conheça a classificação de piadas: são quase sempre denominadas por "vítima": piadas de loura, de português, de gordo, de gay... até bem pouco tempo, ainda havia lugar público para as piadas de judeu (que, por envolverem uma suposta avareza deles, também incluem árabes, libaneses, sírios e turcos, sob uma denominação étnica comum), de negro e de deficiente físico.
O "problema" (porque só é problema para quem conta a piada) é que, ultimamente, as minorias têm se mobilizado para fazer valer um princípio constitucional básico e fundamental: é proibido discriminar pessoas em função de raça, etnia, religião, gênero, sexualidade, origem geográfica, classe social etc. Por isso, piadas de judeu, turco, negro e pessoas com deficiência podem ser motivo de ações judiciais sérias, multa e até prisão. O que parece que está acontecendo é que os humoristas e "engraçados" da TV, ao ver que suas vítimas habituais estão se tornando inatingíveis, apontam suas armas para "quem sobrou", especialmente louras e gays.
Nesse momento, por exemplo, a discussão do Faustão (que é obeso, não se esqueçam) é com a diversidade de gênero e sexualidade. Ele foi instado pela Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) – sem ofensas, no maior clima de respeito – a diminuir a quantidade de piadas e uso de termos pejorativos que usa quando se refere a outros homens como "boiola", "libélula", "morde fronha", entre outros, na insinuação de que sejam gays. E resolveu tomar uma atitude pública, ironizando a carta em seu programa, pedindo "tolerância" à ABGLT, minimizando o efeito de seu próprio programa sobre a sociedade e a cultura e, no fim, comparando as pessoas LGBT às louras burras.
Faustão – quer gostemos ou não, infelizmente para muita gente – é um formador de opinião e disseminador de conceitos nas camadas populares que assistem ao seu programa todos os domingos. Seus jargões como "Ô loco, meu!" e apelidos como "pentelho" se espalham por casas, escolas e escritórios. Aliás, até ele fazer uso contínuo de "pentelho" na TV para designar o cara chato, a palavra era banida da TV e da imprensa, tida como palavrão, sussurrada longe dos ouvidos de mães e avós. Hoje, mães e avós usam o termo sem problemas e já nem se preocupam tanto se crianças o falam também – se isso não é indicativo de uma influência direta, não sei o que é.
Muito pior do que quando ele faz uma piada ou usa um termo pejorativo no decorrer do seu programa, quando Faustão vem a público defender seu "direito de fazer humor" (leia-se "direito de discriminar") ironizando e pedindo "tolerância" com sua forma de fazer humor, ele dá armas aos intolerantes.
Não seria melhor ele pedir tolerância aos colegas de escola que xingam, ridicularizam – e acabam espancando – os "boiolas" e "libélulas" da turma? Tolerância aos pais que batem, castigam e acabam expulsando de casa seus filhos gays, suas filhas lésbicas? Tolerância à sociedade que empurra travestis para a prostituição e depois as isola – e quando elas aparecem mortas na sarjeta, ainda as ridiculariza pela mídia, chamando-as de "travecos" e "bonecas"?
Faustão deveria se levar um pouco mais a sério. Não é porque ele usa gírias e conversa informalmente com artistas e celebridades, que a sua comunicação é desprovida de uma linha editorial (como qualquer produto da comunicação de massa). Ele tem uma responsabilidade para com seu público e a sociedade em geral. Se ele acha que não influencia a opinião pública, então ele está negando a audiência de seu próprio programa e devia se retirar da TV. Se ele finalmente admitir que é uma influência em potencial para os telespectadores – inclusive crianças e adolescentes que assistem avidamente seu programa todos os domingos e vão comentá-lo e repetir seus jargões durante a semana – então ele deve saber que ele, sim, deve ser mais tolerante com as pessoas de um modo geral. E participar, se possível, do Programa "Brasil sem Homofobia".
Ele não pode acreditar realmente que, se parar de ridicularizar as pessoas usando termos de conotação homossexual pejorativa, vai deixar de ser "engraçado". Existem outras formas – muito mais inteligentes, diga-se de passagem – de se fazer humor. Ele e sua produção deviam pensar nisso e deixar os gays em paz.

Enfim, sejamos francos: um dia os portugueses, as louras e as pessoas obesas vão acabar se cansando de serem alvos de piadas. Nossos camaradas lusitanos podem muito bem entrar na questão da origem geográfica; ser loura natural é fazer parte de uma minoria étnica neste país; e as pessoas obesas – bom, para quem não sabe, obesidade é doença, o que facilmente inclui essas pessoas na lista de pessoas com deficiência. Ou seja, o próprio Faustão (que é obeso, não se esqueçam) devia estar na luta contra o preconceito em todas as suas vertentes. E com bom humor.
(as imagens foram capturadas do blogs Guima Cartunista e Risada Forçada, no Blogspot.com)














