
A propósito da aprovação, pela Câmara Municipal de Piracicaba, de uma lei que proíbe uma série de comportamentos considerados, pelos doutos vereadores, como "maus tratos a animais", chamou-me a atenção uma questão que é, no mínimo, problemática: a óbvia e patente discriminação religiosa mal disfarçada nessa lei.
Senão, vejamos: a lei se propõe a impedir ações que venham a provocar sofrimento e dor a animais. Em recente entrevista, o vereador responsável pelo projeto, Laércio Trevisan Júnior, enfatizou que "o que viu na TV" sobre as atividades do candomblé lhe causou preocupação no que se refere ao tratamento a animais.
O que o propositor da lei não sabe - ou finge não saber - e parece jamais ter tentado entender, é que animais preparados para sacrifícios no candomblé são, provavelmente, os exemplares mais bem tratados para abate no país, com notável exceção das fazendas que usam alta tecnologia em seus cuidados.
No candomblé, assim como na maior parte das religiões que praticam sacrifícios - o que inclui os antigos hebreus citados na Bíblia - o animal preparado para o sacrifício é o melhor de seu rebanho e deve ser devidamente engordado, tratado contra doenças e mantido longe de atividades e situações estressantes ao longo de sua vida. Em geral, quando se trata de macho, é um reprodutor de qualidade comprovada. Quando se trata de fêmea, em geral é jovem e sem ter tido ninhada, nem estar prenhe. Dadas as devidas proporções, animais preparados para o sacrifício ritual não chegam diretamente da loja para o abate; são observados cuidadosamente, bem alimentados e descansam bastante - muitas vezes, seus últimos dias de vida são bem melhores do que eram na granja ou fazenda em que nasceram.

Animais doentes e/ou feridos, fêmeas grávidas ou com crias pequenas e ainda dependentes, essas mesmas crias pequenas, animais velhos e/ou abaixo do peso - todos esses exemplares são excluídos da lista de sacrifício. O mesmo acontece com qualquer animal, independente de sua condição física, se no momento do abate ele fizer algo tão simples quanto um gemido. O menor sinal de contrariedade por parte do animal indica desaprovação por parte dos orixás a quem ele se destinaria. Um animal preparado para o abate e aceito pelos deuses não geme, não chora, não se debate nem tenta fugir. Ele faz parte da cerimônia e suas reações são elementos importantes do processo religioso.

O sacrifício animal é uma prática ritual milenar, realizada em inúmeras religiões e não apenas o candomblé. Os judeus mais tradicionalistas ainda sacrificam um cordeiro na Páscoa e aspergem seu sangue nos umbrais (só que o fazem discretamente, até por medo de possíveis repreensões por parte de outras pessoas). O sacrifício é, em grande parte, uma refeição compartilhada entre mortais e deuses - esse fato é comprovado em inúmeras pesquisas antropológicas. Basta ler Marcel Mauss ou Durkheim para entender o sentido do ritual e da oferenda. No caso do candomblé, essa ideia sai da teoria e se manifesta na prática diária: a maior parte da comunidade praticante e frequentadora é de baixa renda, carente e só se alimenta razoavelmente bem quando acontecem as cerimônias religiosas, momentos em que o povo é convidado a compartilhar as bênçãos dos orixás ao degustar as comidas oferecidas. O orixá, ritualmente, 'ingere' a energia contida em partes específicas do animal: cabeça, coração, patas e algumas vísceras. A maior parte da carne dos cabritos, galinhas etc. vai parar nos panelões e fornos, seguindo dali para os pratos de uma população que algumas vezes nem é devota, mas frequenta o espaço religioso em busca de uma refeição melhor. Nesse contexto, o candomblé faz um importante trabalho junto às comunidades carentes.
Outras religiões praticam outros sacrifícios: ervas, incenso, perfumes, flores, estatuetas, jóias etc. Tudo o que se oferece aos deuses pode ser encarado como sacrifício. Mas nenhum deles é reprimido em tão larga escala quanto os sacrifícios animais do candomblé.

O que mais me causa espanto não é nem o fato de que essa repressão é propagada pelas mesmas pessoas que, quando se tenta tirar um cruxifixo de um cartório ou repartição pública, ou se impedir que um carro com auto-falantes no volume máximo rode pelos bairros convidando pessoas para o culto dessa ou daquela igreja, gritam "liberdade de expressão religiosa!". Esse tipo de parcialidade hipócrita já é esperado, considerando a postura histórica de contínua luta pela hegemonia de crença que essas organizações mantêm. Para essas pessoas, 'liberdade' significa apenas a liberdade delas mesmas de impor suas crenças aos demais.
O que realmente me causa espanto é ver pessoas supostamente engajadas com Direitos Humanos - pessoas que participam de grupos, comunidades e listas em defesa da cidadania, da diversidade e de grupos que também sofrem repressão por parte dessas instituições religiosas - permanecerem caladas (ou pior, concordarem) diante de tamanha demonstração de intolerância religiosa. Essa atitude só pode ser explicada por uma razão muito triste: preconceito introjetado. Essas pessoas, no que se refere a crenças, ainda carregam consigo o mesmo preconceito do senso comum que diz que o candomblé é uma religião 'do mal', que pratica 'artes obscuras' ou que, pelo menos, é uma 'religião de ignorantes'.

Em um momento delicado como este que vivemos, no qual as liberdades individuais e coletivas empalidecem diante de uma onda conservadora mal disfarçada de politicamente correta e em dia com as preocupações mais atuais - meio ambiente, infância e adolescência etc. - é triste ver pessoas engajadas com a luta pela garantia dos Direitos Humanos caírem nessa armadilha antiga do preconceito.
Liberdade de expressão religiosa deve ser igualmente respeitada por todos os lados. Impedir o sacrifício animal no candomblé é o mesmo que impedir todo o processo cerimonial de iniciação de novos integrantes, uma vez que o sacrifício está presente em diferentes fases do ritual. Seria o mesmo que tornar o batismo ilegal. Alguém, que não seja ateu convicto, concorda em propor uma lei tornando o batismo ilegal? Pode-se alegar que ele gasta água, é anti-ecológico, ajuda a poluir rios e lagoas etc.
É muito fácil se apropriar de um discurso antiquado e repetitivo e condenar o 'primitivo' e 'diferente'. Conclamo os reais defensores dos Direitos Humanos a pensarem nisso.







