Hoje, porém, devido a uma série de mudanças legais e culturais, há facetas da discriminação que se escondem e se disfarçam, sob pena de serem condenadas publicamente, pelo menos no que se refere à fachada politicamente correta da sociedade. Note-se que eu não estou falando do preconceito; preconceito é um aspecto mental/cultural que é ensinado, absorvido e desenvolvido socialmente, algo que deve ser erradicado com educação e ações em prol da igualdade social. Discriminação, por outro lado, é uma manifestação ativa – verbal, física, institucional – que precisa ser coibida por outras ações.
Em uma mesma semana, a mídia nos trouxe três manifestações de discriminação, cada uma devidamente mascarada por um discurso diferente – mas nenhum desses discursos é capaz de esconder o preconceito. É importante aprender como essas expressões surgem, quais seus pontos fortes e fracos e como podemos nos preparar para outros ataques como esses.
Primeiro, no ‘Big Brother Brasil’, o ‘veterano’ Marcelo Dourado expôs, em toda a sua glória infame, o que existe de mais retrógrado e ignorante nos discursos em relação à AIDS e às formas de contaminação. Ao afirmar categoricamente que ‘mulher não passa AIDS para o homem’, que ‘só homens heterossexuais transmitem AIDS’ e que ‘se a mulher foi contaminada, é porque o homem teve uma relação homossexual’, ele conseguiu, em menos de cinco minutos, ir contra todas as campanhas de prevenção da OMS, do Ministério da Saúde e das ONGs que lutam, no Brasil e no mundo, contra uma epidemia cruel, para a qual ainda não foi descoberta uma cura – e que cada vez mais afeta a população heterossexual, especialmente crianças, adolescentes e idosos. Além disso, ele manifestou claramente uma série de idéias preconceituosas contra homens homossexuais, bissexuais e outros HSH, bem como contra as pessoas soropositivas em geral. Literalmente, ele chamou todas essas pessoas de promíscuas, infiéis e as isolou em um ‘grupo de risco’, conceito com o qual já não se trabalha há anos. Não é a natureza do indivíduo que o faz mais ou menos propenso a se contaminar, seja com HIV ou qualquer outra DST; é o comportamento de risco que o indivíduo assume ao decidir transar sem camisinha. E isso vale para todo mundo. Ao contrário do Dourado, o HIV não discrimina.
Pior ainda, ele usou o argumento retórico da autoridade, ao alegar que ‘médicos’ lhe tinham passado tais ‘informações’. O Ministério da Saúde devia, em parceria com o Ministério da Justiça, exigir saber dele a identidade de tais médicos – se é que eles existem – para tomar as devidas providências éticas. Sim, porque se algum médico realmente disse tamanhas atrocidades, mereceria perder a licença. E, mesmo sem diploma, Dourado – que já devia saber a essa altura como funciona o apelo midiático de ‘reality shows’ junto à população – prestou mais um desserviço social, ao dizer com firmeza que não usa camisinha e ninguém o fará mudar isso. Um alerta às mulheres (e a quem mais tiver o desprazer de fazer sexo com esse homem): exijam a camisinha, pelo seu próprio bem. Com esse tipo de mentalidade e atitude, não demora muito a termos mais um foco de HIV entre heterossexuais. A propósito, o tópico no Twitter é #foradourado

Depois, foi a vez do General Raymundo Nonato de Cerqueira Filho, indicado a ocupar uma vaga no Superior Tribunal Militar (STM), destilar o veneno da ‘tradição’ preconceituosa contra homossexuais. Ele também usou o argumento da autoridade, ao afirmar que estaria provado, em casos documentados da Guerra do Vietnam, que as tropas não obedecem a oficiais homossexuais, ou antes, nas palavras dele, “indivíduos desse tipo”.
Considerando que os EUA ainda mantêm a política “Don’t Ask, Don’t Tell” em atividade e que os oficiais homossexuais de lá ainda não podem sair do armário, sob pena de baixa da corporação, eu gostaria de saber de onde o General tirou sua argumentação. Além disso, ele não só põe em dúvida a capacidade de militares homossexuais – que todo mundo sabe que existem aos milhares nas nossas Forças Armadas, só não podem se mostrar – como também questiona a própria hierarquia militar. Então, os soldados têm o direito de questionar e desobedecer ordens de seus superiores? Onde está a tão tradicional e afamada ‘disciplina militar’? E a ‘cadeia de comando’? Esse argumento pífio usado pelo general em nada difere de argumentações anteriores, usadas para defender a não promoção de mulheres nas Forças Armadas e, antes disso, a mesma atitude para com afrodescendentes. Agora, o Senado informa que o General já foi sabatinado e que não pode haver nova entrevista. Mesmo que isso fosse verdade – então não é possível voltar atrás em uma decisão? – o Presidente sempre pode vetar uma indicação do Congresso. E devia mesmo fazê-lo. Um general que acha que “talvez tenha outro ramo de atividade que ele [o militar homossexual] possa desempenhar” devia, ele mesmo, achar outro ramo de atividade. A propósito, o tópico no Twitter é #gaysnoexercitoja
E, por fim (e talvez até com a melhor das intenções, a gente nunca sabe), Danuza Leão escreveu artigo publicado em vários veículos, desqualificando a proposta da Escola LGBT de Campinas. Ela afirma que ‘vocação para drag queen vem de berço e não precisa ser ensinada’, desconhecendo que drag queen não é uma orientação sexual e sim uma forma de expressão artística e cultural – e, como toda forma de expressão artística, tem parte de inspiração e parte de capacitação. Por que ela terá que ser, necessariamente, ‘espontânea’ e não pode ser treinada, ensinada, aprendida? Mais ainda, como diz Deco Ribeiro em sua ótima resposta ao artigo da Danuza, se é possível ao aspirante a drag desenvolver seu talento sem sofrer inúmeros abusos ao longo da adolescência em um ambiente propício e inclusivo, porque tal iniciativa precisa sofrer ataques adicionais?Acho, no entanto, que o ‘problema’ das pessoas com a Escola LGBT é conceitual na origem. Como a própria Danuza tenta desastradamente justificar em seu argumento, a questão seria uma suposta exclusão criada pela própria Escola, ao se dirigir ao público LGBT e oferecer cursos que ela chama de “artísticos”. Ora, ela clama, “por que não ensinar também a trabalhar com mecânica, carpintaria, eletricidade, ou a consertar um ar-condicionado?” Acontece que a Escola LGBT é um ponto de cultura – e se ela tivesse lido o projeto antes de criticá-lo, talvez tivesse entendido isso – e, como tal, ela tem funções, objetivos e público-alvo específicos (e é inclusiva, ou seja, não é restrita a pessoas LGBT) - ah, antes que eu me esqueça, o tópico é #escolaLGBT
Talvez Danuza não saiba, mas nas escolas técnicas em que há cursos de carpintaria, mecânica e conserto de ar-condicionado, de um modo geral, homossexuais são isolados e perseguidos. Pode ser que, um dia, a inclusão seja tal que não haja mais necessidade de haver escolas LGBT. Ou Paradas. Ou leis criminalizando a homofobia. Também pode ser que não seja mais necessário haver leis, dias comemorativos e atividades contra o racismo, a violência contra a mulher e a intolerância religiosa. Mas, pelo discurso de pessoas como esses três, parece que ainda vai demorar um tempo...
8 comentários:
Arrasou Eduardo. Assino embaixo!
Eduardo,
Não é possível sabatinar novamente o General porque a Comissão em questão já o aprovou por unanimidade, mas pelo que entendi ainda há necessidade de passar pelo plenário do Senado.
Parabéns pelo post.
Carlos Alexandre
É triste ver que pessoas com esse tipo de pensamento ocupam posições de destaque na midia atualmente, o pior disso tudo é que essas pessoas continuarão ocupando esses espaços nos jornais e nos sites de fofoca.
Eduardo,
parabéns pelo artigo.
Texto direto e preciso. Vai para os favoritos...
Arrasou mesmo, Edu!!
É aquilo que sempre soubemos que iria acontcer: quanto mais visibilidade pras gay, mais visibilidade pros homofóbicos tb. Antes, eles não tinham que se manifestar sobre esse tema, porque simplesmente o assunto "gay" não era discutido. Agora é. E surgem essas pérolas.
O bom é que cada vez mais sabemos BEM quem são. =D
bjus do Deco =]
Edu, texto necessário e de "alta-costura" como sempre...
posso republicar no "Homofobia Já Era"?
É importante que mais homossexuais leiam e reflitam sobre estes temas.
Abraços saudosos
Excelente post. Parabéns!!!
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