No dia 20 de novembro, celebramos o Dia da Consciência Negra (ou Dia de Zumbi) e eu achei por bem falar um pouco sobre o tema. Afinal, o movimento GLBT está centrado, neste momento, na aprovação do PLC 122/2006, que iguala a homofobia ao racismo, para que ofensas e práticas violentas contra pessoas homossexuais, bissexuais e transgênero sejam tratadas como atos de preconceito étnico-racial. E, apesar do que alegam alguns pseudo-cristãos, que escondem sua intolerância atrás de interpretações duvidosas da Bíblia, o PLC 122/2006 não fala da “liberação total e absoluta da orgia gay nas ruas da cidade”, nem da “liberdade de gays terem encontros românticos em igrejas e templos, em total desrespeito ao local onde se encontram, sem medo de repreensão por parte de sacerdotes e fiéis”. O projeto de lei fala de respeito, de igualdade, de integridade e de um resgate histórico de direitos – os mesmos princípios que regem a luta das feministas e dos afro-descendentes ao longo da História.
Para comprovar a veracidade dessa afirmação, basta fazer um exercício simples de deslocamento. É bem fácil, a menos que os leitores sejam adeptos da matemática da turma do Chaves – eu estou falando do personagem da TV, não do venezuelano malcriado que conseguiu tirar até o Rei da Espanha do sério, apesar de o excelentíssimo presidente da Venezuela mostrar a toda hora que também é um palhaço com mentalidade infantil que adora aparecer na TV.
Aliás, um parêntese: será que o Lula não vê que o “Huguinho”, que ele defende como um “irmão e aliado”, tomaria as reservas de petróleo e gás do país do “Luizinho” na primeira chance? O cara fala e age como se seguisse os passos de Solano López – o ditador paraguaio que resolveu declarar guerra aos seus vizinhos, encarando sozinho Argentina, Brasil e Uruguai.
É só dar uma abertura que o Chávez mostrará a que veio – e, para variar, nosso querido presidente não vê nada e de nada sabe... Ou será que o Lula está oferecendo apoio a um terceiro mandato para Chávez, na esperança de que seu próprio terceiro mandato esteja garantido? Será que o Brasil resistirá a mais quatro anos de assistencialismo barato e populista, da institucionalização da esmola, do aumento do tráfico de drogas e armas em escala nacional e do crescimento desenfreado do trabalho informal?
Bom, mas não é para criticar o nosso governo que eu estou aqui hoje. Voltando ao assunto: lembram-se daquele quadro clássico da escola do Professor Girafales, em que os “brilhantes” alunos conseguem fazer contas com laranjas, mas não maçãs? Eu espero que meus leitores consigam fazer melhor do que isso. Vamos tirar a diversidade sexual do centro das atenções e pensar juntos em algo que já está garantido
Vocês sabiam que, até 1954 e o presidente Dwight “Ike” Eisenhower,
nos EUA (nação que se orgulha de sua democracia e respeito à diversidade, mas que ainda não resolveu completamente a questão do casamento homossexual), os “negros” e “brancos” (que sabemos não serem “racialmente puros” na imensa maioria dos casos) nem podiam estudar juntos na mesma escola? E os negros nem votavam! Aqui, apesar de não haver tal sectarismo explícito, as próprias condições sociais e financeiras impediam que muitos afro-descendentes freqüentassem as melhores escolas. Eu me lembro de que, na década de 80, no CEFET-RJ, entre alguns milhares de alunos, menos de 10% era de “negros” – eu uso as aspas porque, no Brasil, a maioria de nós é mestiça, mas mesmo assim, vivemos em um mundo em que as aparências falam muito alto – quem “parece negro” sofre mais dificuldades do que quem “parece branco”. Esses fatos ainda se perpetuam até hoje, caso contrário não haveria razão para termos leis de reserva de vagas, não é mesmo? E o escândalo dos irmãos gêmeos que pleitearam reserva de vagas e só um conseguiu (por causa de uma foto em que o outro parecia “branco”) demonstra isso claramente.
Até hoje, a Casa Branca ainda não recebeu um presidente que se tenha declarado “negro” no censo – e é possível que uma mulher (provavelmente Hillary Clinton) venha a ser presidente daquele país antes de um negro. A luta das mulheres pela igualdade é mais antiga, em vários locais, do que a luta dos afro-descendentes e eu acho que elas merecem – contudo, o mais irônico é ver que, em vários países da própria África, as tradições arcaicas ainda impedem que as mulheres sequer tenham educação básica, quanto mais direitos civis e igualdade. Em alguns locais elas ainda têm o clitóris extirpado na infância, em um ato de total brutalidade contra a natureza e os direitos humanos.
A propósito dos direitos das mulheres, vale relembrar uma história que eu já contei: há algum tempo, uma colega de trabalho veio me perguntar “por que vocês fazem essa tal parada gay?Eu acho desnecessário; afinal, vocês querem igualdade, mas não existe parada hétero”. Es respondi com outra pergunta: “Por que você é jornalista?” Ela me disse que era porque ela gostava, porque tinha estudado muito para isso e tinha passado no concurso. Eu então lhe respondi “Não, você trabalha como jornalista porque você pode. Porque a sociedade lhe permitiu estudar, porque sua família não a criou para ser apenas uma dona-de-casa e, no máximo, professora primária. Porque você teve o direito de concorrer no vestibular e no concurso público, da mesma forma como hoje você tem direito de votar para presidente”.
Ela riu e disse “Mas é claro que eu posso fazer tudo isso, eu tenho esses direitos! Isso é natural!”
Aí está o erro clássico de muita gente. Ter direitos sociais não é “natural”; é social e cultural. Minha colega só tem seus direitos porque, décadas atrás, algumas mulheres faziam passeatas e queimavam sutiãs, se rebelavam e eram presas.
Naquela época, havia homens que pensavam como ela: que o direito era “natural” e que não havia necessidade das mulheres fazerem passeatas em sua luta pela igualdade, já que não havia passeatas masculinas. Quem tem seus direitos garantidos freqüentemente comente o erro de achar que eles são “naturais”. Eles são concedidos; são conquistados; às vezes são politicamente negociados. Porém, qualquer que seja a forma, direitos são sempre frutos de relações sociais e de uma mudança de paradigmas culturais. E vale lembrar que, mesmo garantidos, os direitos das mulheres e de minorias étnicas ainda não são plenamente desfrutados – a luta continua, companheiros!
Voltemos à comparação: quando se chama a homossexualidade de “homossexualismo”, quando um heterossexual chama um homem homossexual de “veado”, “bicha”, “boiola”, uma mulher homossexual de “sapa”, “sapata”, “fanchona”, um travesti de “boneca”, “trava” etc. – é o mesmo que um “branco” chamar um afro-descendente de “crioulo”, “neguinho”, “negão”, “preto”, “macaco” etc.
Dizer que “ninguém é obrigado a aceitar que um adolescente homossexual ou um filho de um casal homossexual estude na mesma escola dos seus filhos” é o mesmo que dizer – e eu ouvia dizer isso abertamente no Brasil até os anos 80 – que “eu nada tenho contra negros, mas uma família deles na vizinhança poderia desvalorizar o meu imóvel”.
Além de preconceituosas, as pessoas ainda são auto-indulgentes o bastante para desculparem a si mesmas e dizerem “eu não tenho nada contra, mas o que os outros vão pensar?” Sim, a culpa é sempre dos outros...
Dizer que “uma empresa pode ter o direito de demitir ou não selecionar para emprego um trabalhador por ele ser homossexual” é o mesmo que dizer que “uma empresa tem o direito de não ter negros trabalhando misturados aos brancos, ganhando o mesmo”. E, até hoje, tanto negros quanto mulheres ainda têm, em muitas empresas, tratamento diferenciado e salários menores do que seus colegas homens “brancos”.
O próprio feriado de 20 de novembro foi motivo de controvérsia. Sua proposta foi lançada em 1978, mas só pouco a pouco, estado a estado, ele foi se tornando um dia de celebrações públicas e só neste século sua abrangência alcançou o país. Aqui no Rio de Janeiro, foi preciso esperar até 2002 para que a então governadora Benedita da Silva (não por acaso mulher e negra) o tornasse feriado estadual.
É preciso entender que o PLC 122/2006 não trata de sexualidade – tal como as leis anti-racismo não tratam de cor ou origem – e sim de respeito. Ele, na verdade, meramente especifica (da mesma forma que as leis do racismo e da proteção à mulher) direitos que a própria Constituição define: que ninguém sofrerá discriminação por qualquer motivo. Ninguém é obrigado a aceitar ou mesmo entender a homossexualidade – e ninguém é obrigado a ter amigos negros, amarelos, azuis ou de qualquer cor de pele e ascendência étnico-racial – mas é preciso que todos saibam que, se desrespeitarem publicamente os homossexuais por causa de sua orientação sexual, pagarão por isso perante a sociedade, tal como aqueles que desrespeitam o negro, o índio ou o chinês por causa de sua cor de pele, sua cultura, sua religião e seus costumes.
Porque, da mesma forma como somos todos mestiços em algum nível, todos temos potencial para a
diversidade sexual – nós, nossos filhos, sobrinhos, primos e netos. O que dizer de quem condena a “abominação” que é o seu vizinho cabeleireiro – e acaba descobrindo, no fim da vida, que seu filho militar, engenheiro, machão e pai de família na verdade sempre foi um homem triste e reprimido, que só encontrou a felicidade nos braços de outro, em encontros às escondidas?
O sábio Confúcio (provavelmente um parente na minha distante linhagem chinesa) deixou três opiniões fundamentais para a civilização: a primeira foi de que “a carne deve ser cortada antes de chegar à mesa” – realmente, é um absurdo o que se vê nos restaurantes: pessoas desastradas tentando cortar bifes e costeletas dignas dos Flintstones, sem derrubar montanhas de arroz, feijão, macarrão, farofa e salada para todos os lados; a segunda foi de que “todos os homens nascem iguais; é a educação que recebem que gradualmente os diferencia”; e a terceira foi “há homens incapazes para a Ciência, mas não para a Virtude”. Então, vamos todos nos educar para a verdadeira perfeição, alcançando as virtudes da tolerância e da aceitação mútua. Aí, sim, as paradas, os dias internacionais e as comemorações de consciência e de orgulho serão desnecessários. Porque todos nós seremos verdadeiramente iguais, tal como quando nascemos.

6 comentários:
Caríssimo Eduardo,
O Orkut, às vezes, cumpre o seu papel. Foi através dele que te encontrei e, por conseqüência, também o seu blog. Fiquei tão encantada que já há algum tempo tomei a liberdade de criar um selo para disponibilizar o seu link em meu blog. Quando puder dê uma passada por lá e me deixe saber se está tudo bem pra você.
Parabéns pelo conteúdo de seu blog e pela excelente qualidade de seus textos.
Abraços.
Entrei para ler um texto, e não consegui parar até terminar o outro que se complementam perfeitamente. Adorei a forma como relaciona as diferentes lutas por igualdade no mundo, realmente, o que esperamos com essas lutas e leis é que as pessoas mudem de atitude e que com isso haja mais respeito entre elas.
Não deixe de me avisar quando escrever mais.
Um grande abraço
Eduardo...
Só passando aqui para divulgar a atualização de postagem do http://dispositivodescontrole.blogspot.com/
Família?? Unidade convêncionada ou unidade de vivência???
Eduardo, eu adorei ler seu artigo no Globo Online!!! Parabéns, cara!!! Tomei a liberdade de postá-lo no meu blog, com o devido crédito, é claro.
Dá uma olhadinha por lá. Tem coisas interessantes. Talvez o post que escrevi sobre o Silas Malafaia e Magno Malta possam interessar. www.gls.zip.net
Abraço forte,
Sergio Viula
www.gls.zip.net
Fico muito contente a cada vez que olho algum artigo defendo os direitos humanos, aqui no meu município, eu e meus amigos, fazemos um trabalho precido, mas não escrito somente conversando e me engrandece saber que existem milhares de pessoas que se preocupam com os outros.
Há alguns dias olhei uma entrevista sua na tv Brasil sobre a diversidade sexual na televisão e foi naquele programa que tive meu primeiro acesso às suas idéias.
Boa sorte pra você e que seus artigos continuem sendo uma forte arma para vencermos qualquer tipo de discriminação.
Abraços
Eduardo
Eu adorei!!! pois foi realista e objetivo!!!! hojem em dia nosso mundo tem ''racismo'' ate nas roupas que usamos, se todos tivesem a mesma opiniao que vc!!!
o nosso mundo nao seria o mesmo!!!!
pois continua assim com esse pensamento!!!
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